24 de dez de 2010

Papai Noel, sem querer. - Por Livia Leal



Um sujeito simplório resolveu fazer uma surpresa para duas crianças da família na noite de Natal. Pegou a roupa vermelha, o cinto preto, colocou a barba de algodão e rapidamente pôs o gorro vermelho. Subiu no telhado, para que a surpresa fosse maior, mas algo inexplicável aconteceu. Sem ter reparado antes, ouviu gritos chamando “Papai Noel, Papai Noel” e, olhando para o lado, ainda no telhado, percebeu que na vila vizinha várias crianças o haviam visto e chamavam seus pais e mães para que olhassem que o Papai Noel havia chegado e que se encontrava em cima daquele telhado. O que seria um ritual tradicional de família na noite de Natal – de alguém se vestir de Papai Noel e entregar os presentes – acabou transcendendo e se tornando uma surpresa para o próprio sujeito, que de repente se viu em um papel que lhe fora subitamente atribuído; um papel inevitável. A responsabilidade que as inúmeras crianças da vila depuseram sobre aquele homem era mais pesada que qualquer saco lotado de presentes: ele deixava de ser apenas um homem em cima do telhado para se tornar O Papai Noel.


Tenho certeza que, naquele instante, o Papai Noel recém nomeado foi tocado pelo espírito do Natal. Não somente ele, mas todas aquelas crianças, ansiosas pela chegada do bom velhinho e pelos presentes que viriam a ganhar; todas as mães, que também foram surpreendidas pela cena; e todos que puderam presenciar esse fenômeno que é o Natal: a crença de que um mundo melhor é possível e que as esperanças sempre serão renovadas, de um jeito ou de outro.



Esse ano o bom velhinho deu um presente ao meu pai. Algo bastante similar ao que John Coffey deu a Paul Edgecomb em À Espera de um Milagre. Todos carregamos responsabilidades, mas poucos sabem o peso de ter o papel de renovar esperanças. Nosso presente, esse ano, foi perceber que muitas vezes, direcionados a um propósito bom, somos surpreendidos pelos milagres da vida. E, fazendo de nós algo maior do que realmente somos, esses mistérios do acaso têm o poder de nos rejuvenescer de alma, de acreditar que realmente podemos ser esse algo maior, e que devemos (por que não?) sê-lo.

16 de dez de 2010

Amor - Por Arnaldo Jabor


Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Alguns amores tem começo, meio e fim. Outros duram pra vida toda. Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah, terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo...
- Cinco anos...que pena...acabou...
- é...não deu certo...
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai e mamãe mais básico que é uma delícia.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante...e se o beijo bate...se joga...se não bate...mais um Martini, por favor...e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Voltar atrás não é pecado, é honra que poucos podem experimentar. E os mais belos e intensos amores-eternos de que tive notícia traçaram esse trajeto. Precisaram se separar, amar outros amores, sofrer, até descobrir que já haviam encontrado a tal eternidade passos atrás na trajetória da vida.
Uma hora você perceberá que ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!
Nesse momento, basta ter coragem e se jogar.
Nada de drama.
O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade.
Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos ou uma vida. Mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para viver.
Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez. Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e maus momentos.
Passe por tudo que tiver que passar, não se economize!
Mas, não se esqueça:
O legal é alguém que está com você, só por você. E vice versa.
Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói. Não devia, mas dói.
Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração...
Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta.
É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias...

What if?



What if God was one of us?
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make his way home

17 de nov de 2010

A arte de plantar/receber rosas - Por Livia Leal



Quem nunca recebeu algo em algum momento ou situação inesperada? Quem nunca, já contando os créditos e débitos do dia, pesando o ônus e o ônus da vida, foi surpreendido por uma doação gratuita, que não tem sequer a pretensão de ser correspondida?
É certo que hoje em dia tem ficado cada vez mais raro o simples ato de doar-se pelo simples fato de doar-se. A prisão que cada pessoa constrói sobre si mesma impede que a pureza da doação gratuita seja possível e que tudo acabe em um poço sem fim de favores e desfavores: nada é de graça, tudo tem seu preço.
Essa semana fui surpreendida por uma doação gratuita de uma rosa. E aquela rosa veio tão cheia de ternura e afeto, de uma maneira tão simples... sem que eu ao menos a tivesse plantado! Foi um dos melhores presentes que já recebi, porque não havia onerosidade alguma naquela entrega, não havia a necessidade de reciprocidade, apenas a liberdade da doação de um pedacinho de si mesmo a alguém. Aquela rosa veio apenas rosa, sem nenhuma exigência, sem nenhum peso.
O mundo tem carecido de espontaneidade e as pessoas, exigindo demais delas mesmas, acabam deixando escapar o momento de doar-se simplesmente, de amar gratuitamente, de sorrir sem ter porquê.
É preciso abandonar a sede por colher rosas para que se receba rosas gratuitas. É necessário entender que não se perde nem se ganha nesta vida; vive-se, apenas.

9 de nov de 2010

Fardo - Por Livia Leal


Do peso de ser, o peso do mundo pesa sobre mim. Ser pesa sobre o mundo. E o mundo pesa sobre mim, que sou. Se não fosse, o mundo pesaria pelo que deixaria de ser, pelo que o medo me cala e me faz não ser. O mundo pesa sobre o que grito, pesa sobre o que calo. Pesado é o direito de ficar mudo, mais pesado é o preço da denúncia. A transgressão pesa sobre a paz e a renúncia pesa sobre a sede de vida.

Pesada é a escolha diária entre viver e encarar a vida.

18 de out de 2010

Sobre perdas - Por Livia Leal




Não tenho mais medo de perder ninguém.

Se já me perdi tantas vezes sem saber, se já achei o que não imaginava conhecer.
Se já me foi tirado o certo, o óbvio e o seguro.
Quantas vezes já dei por mim em cima do muro?
Não tenho mais medo de perder.

Se a própria perda tiraram de mim...
É que não tenho mais medo de chegar ao fim.

Que seja, então, assim...

Todos nasceram para a liberdade, ninguém escapa de se deparar com a verdade
E quando o vento levar tudo o que passa
E já não importar mais o que eu faça
Vou saber de alguma forma e também
Que já não tenho mais medo de perder ninguém.

10 de out de 2010

Em que esquina dobrei errado? - Por Martha Medeiros

Aconteceu em Paris. Estava sozinha e tinha duas horas livres antes de chamar o táxi que me levaria ao aeroporto, de onde embarcaria de volta para o Brasil. Mala fechada, resolvi gastar esse par de horas caminhando até a Place des Voges, que era perto do hotel. Depois de chuvas torrenciais, fazia sol na minha última manhã na cidade, então Place des Voges, lá vou eu. E fui.

Sem um mapa à mão, tinha certeza de que acertaria o caminho, não era minha primeira vez na cidade. Mas por um desatino do meu senso de orientação, dobrei errado numa esquina. Em vez de ir para a esquerda, entrei à direita. Mais adiante, aí sim, virei à esquerda, mas não encontrei nenhuma referência do que desejava. Segui reto: estaria a Place des Voges logo em frente? Mais umas quadras, esquerda de novo. Gozado, era por aqui, eu pensava. Não que fosse um sacrifício se perder em Paris, mas eu parecia estar mais longe do hotel do que era conveniente. Mais caminhada, e então, várias quadras adiante, não foi a Place des Voges que surgiu, e sim a Place de la Republique. Eu tinha atravessado uns três bairros de Paris, mon Dieu.

Perguntei a um morador o caminho mais curto para voltar à rua onde ficava meu hotel, e ele me apontou um táxi. Teimosa, pensei: ainda tenho um tempinho, voltarei a pé. E assim foram minhas duas últimas horas em Paris, uma estabanada andando às pressas, saltando as poças da noite anterior, olhando aflita para o relógio em vez de flanar como a cidade pede. Cheguei bufando no hotel, peguei minha mala e, por causa da correria, esqueci no hall de entrada uma gravura linda que havia comprado e que planejava trazer em mãos no voo. Tudo por causa de uma esquina que dobrei errado.

Foram apenas duas horas inúteis e cansativas, e duas horas não é nada na vida de ninguém. Mas quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?

Alguns desacertos pelo caminho fazem a gente perder três anos da nossa juventude, fazem a gente perder uma oportunidade profissional, fazem a gente perder um amor, fazem a gente perder uma chance de evoluir. Por desorientação, vamos parar no lado oposto de onde nos aguardava uma área de conforto, onde encontraríamos pessoas afetivas e uma felicidade não de cinema, mas real. Por sair em desatino sem a humildade de pedir informação a quem conhece bem o trajeto ou de consultar um mapa, gastamos sola de sapato à toa e um tempo que ninguém tem para esbanjar. Se a vida fosse férias em Paris, perder-se poderia resultar apenas numa aventura, mesmo com o risco de o avião partir sem nós. Mas a vida não é férias em Paris, e aí um dia a gente se olha no espelho e enxerga um rosto envelhecido e amargurado, um rosto de quem não realizou o que desejava, não alcançou suas metas, perdeu o rumo: não consegue voltar para o início, para os seus amores, para as suas verdades, para o que deixou pra trás. Não existe GPS que assegure se estamos no caminho certo. Só nos resta prestar mais atenção.

9 de out de 2010

‘Tudo aquilo que é visível a coração nu’ - Por Livia Leal


Há algumas semanas vi um menino de rua brincando com um cone. Isso mesmo, um daqueles cones laranjas que a gente vê por aí e às vezes é mais respeitado do que gente quando tá no meio da rua. Só sei que vi o menino com aquele cone enfiado na cabeça e dançando de um jeito tão engraçado que esqueci que ele era um menino, que era de rua, que eu era uma menina, que eu estava ali simplesmente voltando pra casa. Me perdi naquele momento de um jeito tão sutilmente envolvente como se um veneno poderoso houvesse me paralisado. Eu estava em sintonia com aquele menino, com aquele instante de dança, de esquecimento, de ligação. Me senti presa àquela cena, era como se eu fizesse parte dela e ela nem desse mundo fosse. Um menino dançando com um cone enterrado na cabeça... Ele era a lei e a anti-lei, era o real e o transcendental, tudo misturado, bagunçado, confuso e apaixonante. E eu estava apaixonada, de coração inexplicavelmente nu.
Quando dei por mim, já era hora de descer do ônibus. Percebi tudo aquilo que era visível a olho nu e que é rapidamente superado. Eu jamais superaria aquele momento, porque foi, era e continua sendo um instante único: o momento em que enxerguei de coração nu aquele menino dançando com o cone na cabeça.
Tudo aquilo que é visível a coração nu permanece, porque somente despido de preconceitos, regras, moralismos e medos o coração pode ver os detalhes que podem dar algum sentido à existência e que tocam sem que sequer sejam percebidos.

12 de set de 2010

Quando fiquei presa em minha liberdade - Por Danielle Magalhães


Conheci o caos.
Me reconheci
Me ajeitei
Me encontrei
E até gostei.
Achava tudo tão divertido
Minha desordem era bonita, como se contivesse as marcas do tempo.
Eu me sentia mais velha
Mais desapegada
Mais amadurecida
E até um pouco cansada, anos-luz de vida.

Um dia, transpareci que eu simplesmente não estava
Apática, eu estava demasiadamente cansada.
Impotente, extremamente confusa.
Já não me encontrava em minha bagunça.
Minha desordem tamanha não era só externa.
Eu percebi que eu estava asfixiada.
Eu gritava por já não conseguir falar
Mas o que ressoava era silêncio.
Eu estava agonizando.
Ilusão e lucidez, completa e tristemente perdida.
Encaixando coisas como meros paliativos, há muito tempo.

Viver o tempo. Viver e não esperar. Correr
Saber de tudo.
Até não mais enxergar.
Precisei me lembrar que até meu pensamento começava a falhar
Em ininterruptos esquecimentos.

De tanto pensar, me fiz labirinto. Perdida, a vida me forçou a parar.
Arrumar. Organizar.
Agora, não quero pressa, não.
Mas também não quero retardar.
A vida e o mundo pedem pressa.
Mas eu só vou me resolver com a calma, sem atropelar.
Não quero a vista cansada
De tanto enxergar.
Quero olhos saudáveis
Por saberem piscar, meditar e filtrar.
Não quero me sentir velha caduca reumática.
Precisamos todos nos cuidar, arrumar e recomeçar.
Cada um com seu tempo
Cada um faz sua hora.
O mistério é não cair no extremo.
Se cair fundo, o desespero angustia.
Causa sofrimento, físico, moral e emocional.
Tudo é muito difícil, sim. Não se deve ficar acomodado.
Viver não tem fórmula. Todos temos escuridões e abismos.
Mas precisamos encontrar algo, sentidos – que não sejam tiros, ao escuro, senão tudo terá sido em vão.
Enxergar belezas é preciso.
Tocar pra frente, sem se acostumar com os desagrados.
Não engolir tantos sapos
Senão será tragado por todos os não-ditos.
Mas ter cuidado com as pessoas. Deixando-as bem, com vontade de Ser, com respeito e liberdade.
E dosar, também, para não se martirizar, porque tudo dói muito e viver não é leveza.
Mas não pode ser um repleto martírio.
Você tem seu tempo. Eu tenho o meu. Não nos atropelemos.
Encontremo-nos. Livres, mas sempre unidos.
E assim estaremos, ininterruptamente, seguindo, respirando, vivos, de mãos dadas.
Sem nos perdermos demais. Sem nos afastarmos demais.
Neste viver que é um torpor
De lirismo, ficção, sobriedade e realidade.

Sigamos... Almas livres. Corações conjuntos.

11 de set de 2010

PEC da Felicidade está pronta para ser votada na CCJ

A chamada "PEC da Felicidade" está pronta para ser votada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e poderá constar da pauta da próxima reunião do colegiado, depois das eleições. Essa Proposta de Emenda à Constituição, de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), visa ressaltar que os direitos sociais mencionados no artigo 6º da Constituição são essenciais à busca da felicidade. O relator da matéria, senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), apresentou voto pela aprovação.

Pela PEC (19/10), o artigo 6º da Constituição passará a ter a seguinte redação: "são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".

Ao justificar a proposta, Cristovam argumenta que a busca da felicidade só é possível se os direitos essenciais estiverem garantidos. "Todos os direitos previstos na Constituição - sobretudo, aqueles tidos como fundamentais - convergem para a felicidade da sociedade", afirma o senador. Cristovam acrescenta que recente estudo de economistas brasileiros apresentou critérios objetivos para determinar o grau de felicidade dos brasileiros. Segundo a pesquisa, informou ele, fatores como renda, emprego e estado civil influenciam no nível de felicidade das pessoas.

Em seu relatório, o senador Arthur Virgílio apresentou emenda para adequar a ementa da PEC ao objetivo da proposta. Assim, a ementa passa a ser: "Altera o art. 6º da Constituição Federal para direcionar os direitos sociais à realização da felicidade individual e coletiva". A redação original explica que a proposta "Altera o artigo 6º da Constituição Federal para incluir o direito à busca da Felicidade por cada individuo e pela sociedade, mediante a dotação pelo Estado e pela própria sociedade das adequadas condições de exercício desse direito". A forma como estava redigida a ementa vinha causando confusão com relação aos objetivos da PEC. A proposta de Cristovam recebeu críticas porque a ementa dá a entender que a finalidade é garantir, na Constituição, o direito à felicidade.


Interessante, mas utópico. Acho que a Constituição está abraçando muito mais do que pode alcançar no mundo dos fatos. Queria que o propósito das leis se refletisse nos homens, na mentalidade de cada pessoa, mas é algo bem distante do que ocorre na realidade, infelizmente.

8 de set de 2010

Hitler no Brasil – Por Livia Leal

Imagem: Tijolo nazista feito na década de 40 no Brasil para colônia nazista.
Fonte:
http://avare.olx.com.br/itc/comment-about-tijolo-nazista-da-decada-de-40-feito-no-brasil-para-colonia-nazista-id-25547522-c-1

Se eu pudesse dar um título alternativo a este texto, certamente seria the ugly truth (a verdade feia, a verdade que dói).

Por trás da velha capa da moralidade, tenho percebido cada vez mais, entre uma conversa e outra, a presença do bigodinho que tanto alvoroço causou na Segunda Guerra Mundial. Sim, é dele mesmo que estou falando, do insano Hitler de ideias insanas e atitudes mais insanas ainda. A questão é: nossas atitudes e pensamentos têm mesmo levado em consideração que ideias tão perturbadoras são de fato perturbadoras? Tenho medo dessa resposta e tenho mais medo ainda quando se trata de quem vai dar a solução. Quanto a isso em particular, não tenho mais tantas dúvidas: Hitler está no Brasil. Quer ver?

Outro dia estava sentada ao lado de uma senhora no ônibus. Era uma senhorinha de serenidade estampada no rosto, inofensiva, daquelas que a gente ajuda a atravessar a rua ou cede a vez na fila do banco. Pensei em fazer alguma consideração sobre o tempo (aliás, o tempo no Rio de Janeiro tem ficado cada vez mais imprevisível), quando ela simplesmente soltou:

- Tá vendo aquela moça ali? – disse, apontando para uma mulher de rua grávida que passava – Tem mais é que castrar mesmo!

Não soube o que dizer. Acho que Heil, Hitler seria uma consideração adequada, mas a pobre velhinha poderia não entender a ironia e acabar sentindo-se ofendida. Pensei em explicar a ela que esterilizar seria o termo técnico correto, que castrar era utilizado para animais, mas cheguei a conclusão de que era mesmo essa sua intenção: tirar a humanidade daquelas pessoas. Como se ela pudesse tamanho disparate! E como se coubesse a ela decidir quem pode ter filho e quando pode ter filho.

Quanto aos direitos humanos, é melhor nem começar a falar, porque corro o risco de ser acusada de cúmplice de bandido ou algo como “louca utópica”. Direitos humanos viraram tabu, e quem ousa defendê-los merece ter seu pai seqüestrado ou sua filha atingida por um assaltante, pra ver o que é bom pra tosse.

E as favelas? Aaahhh... Joga logo uma bomba que tudo está resolvido, e o Rio de Janeiro vai ter paz novamente! Rezo a Deus todos os dias para que não surja um sujeito achando que isso é o certo, porque aprovação popular é o que não vai faltar. E sinto calafrios em pensar que é possível um novo Hitler, um Hitler que está escondido em muitos coraçõezinhos amedrontados e encolhidos, esperando apenas um Capitão Nascimento real, capaz de botar ordem nessa bagunça toda.

O que estão fazendo de nós? Em que estamos nos transformando? Olhamos com pavor o Holocausto, mas mantemos a mesma mentalidade mesquinha e fascista de outrora. Como se a vida humana pudesse ser definida por uma ação de um louco qualquer, que julga estar fazendo o melhor para todos quando simplesmente esconde assassinatos em massa, sob um pretexto muito maior que qualquer nível de compreensão.

Não sei. Também me sinto confusa quando observo a guerra civil que tem ocorrido lá fora, além da minha janela. Penso em inúmeras soluções, mas nenhuma parece boa o bastante ou suficiente para efetivamente melhorar a situação.

Mas estou certa de uma coisa: Hitler está no Brasil. Entre as alternativas dadas, entre as medidas que tem sido tomadas, entre pensamentos de cidadãos comuns de boa índole, entre as conversas de cada dia no ônibus, na escola, na sala, na esquina, Hitler está lá, com seu bigodinho de sempre, disfarçado de boas intenções, de soluções possíveis, de senso comum. E ainda me dá muitos calafrios perceber essa presença.

2 de set de 2010

As coisas que a gente faz para se torturar - Martha Medeiros


Adianta ficar batendo a cabeça na parede porque perdeu uma oportunidade rara de chamar uma garota para sair? Entendo, você não costuma encontrá-la, não sabe seu telefone, seu sobrenome, seu endereço, onde ela trabalha, teve a chance e deixou escapar, mas vai passar quantos meses se lamuriando como se ela fosse a última mulher do mundo?

E isso ainda é tortura leve. Tem gente com vocação real para carrasco e que não sossega enquanto não sacrifica a si próprio. Que gente? Todos nós.

Há os que têm certeza de que, se estão vivendo uma boa fase hoje, pagarão o preço amanhã, e imaginam direitinho como: sofrerão um acidente, perderão o emprego, serão traídos. Não é possível que esteja tudo bem, assim, no mole, de graça. Algo vai acontecer, é só colocar a imaginação pra funcionar.

Falei em traição? Bah! Um clássico. O relacionamento de vocês é mais firme do que bloco de concreto, não há o menor indício de que possa entrar água, mas ainda assim você não resiste em se martirizar. Qualquer dez minutos de atraso, qualquer ligação telefônica não atendida, qualquer desatenção vira indício de que algo está sendo escondido. E você não se aquieta enquanto não descobre o que não existe, enquanto o outro não confessa o crime que não cometeu.

Além disso, há uma doença secreta se desenvolvendo no seu estômago, no seu cérebro, na sua corrente sanguínea. Os exames não revelaram, os médicos não descobriram, os sintomas não apareceram, mas são favas contadas, você está condenado.

Pensamentos mórbidos com morte. Imaginar cenas de os filhos correndo risco, de o apartamento sendo invadido por marginais, de você morrendo sozinho sem ninguém descobrir seu corpo por dias: filmes de terror que não saem de cartaz na sua cabeça.

Relutamos em aceitar que, se a tragédia não bateu à nossa porta, não foi por engano, e sim por uma contingência da vida. Não bateu, passou reto, não voltará para cobrar a conta que não é devida.

Mas só um curso de imersão budista com o próprio Dalai Lama para fazer a gente abandonar os grilhões a que nos aprisionamos voluntariamente. Imagina se logo você será poupado. Quá! Você não é bobo, não quer ser pego de surpresa, então passa a vida se preparando psicologicamente para a dor, torturando a si mesmo para, quando chegar a hora, estar tão acostumado com o sofrimento que nem doerá tanto.

É a danada da culpa que não permite que sejamos felizes sem ter que pagar penitência por tamanho privilégio.

Pai é um só - Martha Medeiros


Mãe é tudo igual, só muda de endereço.

Não concordo 100% com essa afirmação, mas é verdade que nós, mães, temos lá nossas semelhanças. Basta reunir uma meia-dúzia num recinto fechado para se comprovar que, quando o assunto é filho, as experiências são praticamente xerox umas das outras.

Por outro lado, quem arriscaria dizer que pai é tudo farinha do mesmo saco? Nunca foram devidamente valorizados, nunca receberam cartilhas de conduta e sempre passaram longe da santificação. Cada pai foi feito à imagem e semelhança de si mesmo.

As meninas, assim que nascem, já são tratadas como pequenas "nossas senhoras" e começam a ser catequizadas: "Mãe, um dia você vai ser uma". E dá-lhe informação, incentivo e receitas de como se sair bem no papel. Outro dia, vi uma menina de não mais de três anos empurrando um carrinho de bebê com uma boneca dentro. Já era uma minimãe. Os meninos, ao contrário, só pensam nisso quando chega a hora, e aí acontece o que se vê: todo pai é fruto de um delicioso improviso.

Tem pai que é desligado de nascença, coloca o filho no mundo e acha que o destino pode se encarregar do resto. Ou é o oposto: completamente ansioso, assim que o bebê nasce já trata de sumir com as mesas de quinas pontiagudas e de instalar rede em todas as janelas, e vá convencê-lo de que falta um ano para a criança começar a caminhar.

Tem pai que solta dinheiro fácil. E pai que fecha a carteira com cadeado. Tem pai que está sempre em casa, e outros, nunca. Tem pai que vive rodeado de amigos e pai que não sabe o que fazer com suas horas de folga. Tem aqueles que participam de todas as reuniões do colégio e outros que não fazem ideia do nome da professora. Tem pai que é uma geleia, e uns que a gente nunca viu chorar na vida. Pai fechado, pai moleque, pai sumido, pai onipresente. Pai que nos sustenta e pai que é sustentado por nós. Que mora longe, que mora em outra casa, pai que tem outra família, e pai que não desgruda, não sai de perto jamais. Tem pai que sabe como gerenciar uma firma, contruir um prédio, consertar o motor de um carro, mas não sabe direito como ser pai, já que não foi treinado, ninguém lhe deu um manual de instruções. Ser pai é o legítimo "faça você mesmo".

Alguns preferem não arriscar e simplesmente obedecem suas mulheres, que têm mestrado e doutorado no assunto. Mas os que educam e participam da vida dos filhos a seu modo é que perpetuam o charme desta raça fascinante e autêntica. Verdade seja dita: há muitas como sua mãe, mas ninguém é como seu pai.

15 de ago de 2010


'Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.'

Franz Kafka

Nelson Mandela


(...)

Não importa quantas vezes desatino
nem quantas vezes a vida me espalma
Sou o mestre e senhor do meu destino
Sou o capitão de minha alma.


Vendo o filme Invictus, eis que me deparo com esse trecho do poema escrito por Mandela na prisão. Certamente esse é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Recomendo a todos. E quanto ao poema... ah... preciso dizer alguma coisa?

14 de ago de 2010

O cego - Livia Leal


Hoje vi um cego no ônibus, no caminho de volta para casa. Pensei: deve ser difícil não ver. Sim, torna as coisas muito mais complicadas a deficiência da visão. No entanto, mais triste mesmo é não enxergar. “O pior cego é aquele que não quer ver”. Eu completaria o ditado: o verdadeiro cego é aquele que insiste em não ver o outro, é aquele que finge que não viu ou dissimula ter visto.

Enxerga-se melhor de olhos fechados e de coração aberto. Ver é aceitar; enxergar é compreender.

Queria ser cega por um dia. Dar o contorno que desejo à vida, à existência humana. Bom mesmo é enxergar com a mão, com o coração, com o espírito. A visão é uma cruel forma de confundir o homem: muitas vezes a luz é escuridão.

Aprendi, finalmente, que, de tudo que se vê, fica apenas o brilho de um sorriso, a cor viva e intensa de um dia de sol, o abraço de amor alheio: coisas que só um cego para as desavenças do mundo é capaz de enxergar.

7 de ago de 2010

Mensagens a Fernando Sabino - Hélio Pellegrino


O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.

Alice no País das Maravilhas


"... - Gatinho de Cheshire - começou a dizer timidamente, sem ter certeza se ele gostaria de ser tratado assim, mas ele apenas abriu um pouco mais o sorriso.
"Ótimo, parece que gostou", pensou ela, e prosseguiu:
- Podia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair daqui?
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice
- Nesse caso, não importa por onde você vá - disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá - disse o Gato - , desde que você ande durante algum tempo.
Isso Alice viu que era impossível negar. Tentou, pois, outra pergunta. - Que espécie de gente vive por aqui?
- Naquela direção - disse o Gato, apontando com a pata direita - mora um Chapeleiro. E naquela - acrescentou, levantando a outra pata - mora a Lebre de Março. Visite um ou o outro, tanto faz: ambos são loucos.
- Mas eu não quero me encontrar com gente louca - observou Alice.
- Você não pode evitar isso - replicou o Gato.
- Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca.
- Como sabe que eu sou louca? - indagou Alice.
- Deve ser - disse o Gato, - ou não teria vindo por aqui. (...)"

2 de ago de 2010

Toca Raul!




E quando todos praguejavam contra o frio
Eu fiz a cama na varanda...

Eu nasci há dez mil anos atrás - Raul Seixas



Desconstruir... Nada melhor para desconstruir do que Raul.

"Sou uma criança, não entendo nada" - Carolina Turboli

Eu só sei que cresci porque as pessoas não parecem mais eternas e porque meus assuntos limitaram-se desincrivelmente – por que quando eu era criança e adolescente eu poderia falar horas sobre (o) nada com qualquer pessoa?

Eu só sei que eu cresci porque o tempo corre afobado e as tardes não parecem mais longuíssimos repousos discretos.

Eu só sei que cresci porque esqueci como é que faz pra se apaixonar – e antigamente eu tinha que aprender a parar, louca apaixonada que eu era, por tudo e por todos.

Lembra de quando a gente conhecia alguém e numa conversa já queria levar a pessoa pra vida inteira? De quando a gente desviava a rota pra não passar na frente de quem a gente gostava? De quando não ir numa festa parecia punição eterna... Dos dias passados em claro por causa de tristezas nobres, de noites macias que viram pedaços de céu tatuados na memória, de tardes jogadas em almofadas e travesseiros, de saudades que pareciam fatais – pra algumas quase que fiz testamento.

Hoje fico aqui, vivendo do mais ou menos, me alimentando de felicidades diárias que não dão massa nem pros sonhos de uma semana inteira. E o pior: não dói. Vou processar quem me anestesiou da vida, que adulto adora um processo.

Eu costumava gostar dos processos, de ver as coisas sendo: casulo ainda não-borboleta. De tanto ver as coisas crescendo eu também cresci; cresceram os olhos pros fins, deixando de lado os meios - e olha que do fim espero ainda estar longe, e ser muito menos adulto quando ele chegar (espero, porém, que sem fraldas).

Mas o que me tira o sono (adulto cristão = insônia culposa) é que eu só sei que eu cresci porque ainda existe uma criança que me grita todos os dias aqui dentro, que quando lê Vinicius de Moraes chora por causa do seu antigo grande amor, que gosta de pegar chuva só para girar e desobedecer, que adora brincar nos meus olhos e que me lembra sorrindo, arteira e artista, que de nada valerão os meus dias se eu não puder compartilhá-los com outras crianças, escondidas em outros adultos, talvez tão desolados e perdidos quanto eu...


Por uma criança que consegue, muitas vezes, descobrir a criança que há em mim.

“Cada um escolhe a vida que quer levar” - Livia Leal

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
Se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês


(Fátima - Capital Inicial)



Tudo era ilusão naquela vida de momentos finitos e sensações passageiras. Tudo que havia se resumia em um vazio sem destino, um oco nada, um abismo sem fim. Era preciso mudar? Na espera sufocante, aguardava um livro capaz de mudar sua vida, uma música que a fizesse dançar na Lua, um suspiro de amor, o frio na barriga, o medo aterrorizante... Queria de volta a dor de sentir, o sofrer que provoca a pulsação, o suor frio da angústia e do incontrolável desejar. Afinal, de que valeria a vida sem isso? Era preciso mudar, sim. Era preciso valorizar, nadar contra a corrente, insistir no terrível sofrimento de ser. Era necessário resgatar o que havia sido deixado para trás. “Cada um escolhe a vida que quer levar”. Ela escolheria agora o caminho mais íngreme, mas que lhe renderia aquele sopro de vida que faltava, a música, a dança, o sentimento, e - por que não?- o amor. Deixava de engolir sua existência, para, então, aprender a saboreá-la.

28 de jul de 2010

Desafeto - Marla de Queiroz

Não quero mais o beijo molhado, o derretimento castanho dos olhos, o sorriso sacana. Não creio mais em tardes febris ou saudades desesperadas. Tudo é verbo, verso, papo furado. Tudo pode ser rasgado, cuspido, jogado no lixo. Obra prima perdida em rasuras. Poesia sem calor de corpo. Paixão destituída de loucura. Fogo morto.

Não quero mais o encaixe de tudo, o perfume da pele, a carícia dos dedos. Não creio mais em noites acesas, em madrugadas intensas, em manhãs de luxúria. Tudo é fome e desejo de saciedade. Tudo é espera por novidades. Displicência de afetos, perda de tempo, sexo sem vontade.

Não quero mais sensações de eternidade, abraços pra sempre, sussurros de amor. Creio em frases desacompanhadas, em palavras cruas, textos sem autor. Tudo é falta de comprometimento, tudo é vácuo, vazio, relento. Tudo é falta de rumo, um peito apertado, tristeza sem dor...




Acho que meu momento foi lido por uma desconhecida...

Fonte: http://doidademarluquices.blogspot.com/2010/06/desafeto.html

27 de jul de 2010

O Livro - Livia leal


Ela tinha revirado tudo. Revirado a bolsa, a carteira, o armário, a alma. Ela precisava ter aquele livro. Não se sabia o porquê de tamanho desejo, mas ela estava realmente decidida a conquistá-lo. Conquistar é a palavra certa. Ter e somente possuí-lo não era o suficiente; ela precisava descobrir um meio de chegar até ele, de desvendá-lo em sua sutil condição de livro. Descobri-lo era um mistério que ela queria assumir. Atravessou ruas, avançou sinais entre os carros, andava a passos largos, procurando-o. Passou pela Sete de Setembro, avistou uma Livraria Saraiva.


- Não, moça, no momento não há nenhum exemplar disponível nessa loja, mas a senhora pode encomendar.


Não, ela não poderia encomendá-lo. Ela precisava dele no presente, ela sentia uma necessidade tão sufocante que só acabaria ao tê-lo em mãos. Andou um pouco mais, com o coração disparado, até a Livraria da Travessa. Depois de muita procura, a inevitável decepção:


- Não o temos aqui.


Era visível a desolação em seu olhar, a tristeza que já não poderia esconder. Ela iria até o fim do mundo para consegui-lo. Naquele estado de necessidade, tudo era possível. Até que veio a luz, o feixe de esperança por que tanto aguardara.


- Não tem esse livro aqui, mas tem um exemplar disponível em outra filial nossa, a uns 15 minutos daqui.


A distância não importava mesmo. Agradeceu. Saiu apressada em busca daquilo que estava fazendo com que perdesse o ar. Não se sabia de onde tirava fôlego para andar na Rio Branco, desviando sempre de outras pessoas mais afoitas ainda por motivos que nem poderia passar por sua cabeça neste momento. Era só ele que importava. Por ele, ela correria contra o tempo e contra qualquer obstáculo. Somente para tê-lo em mãos e, enfim, saboreá-lo. O coração nem cabia no peito, os pés pareciam flutuar em uma corrente que a levava àquilo, que era mais que um sonho. Cada minuto que se passava era menos tempo em que ainda estava separada dele; e como era insustentável a falta que ele fazia! Já quase na Presidente Vargas, avistara a livraria. Era lá onde ele repousava, esperando pela sua dona. E era para lá que ela deveria correr. Tirou o casaco e percebeu que o suor molhava sua blusa e, como ventava, ficou arrepiada, um arrepio que se misturava à sensação de frio na barriga, de um nervoso bom de algo que estava prestes a ocorrer: o encontro. Parou no balcão, e disse o nome que a impulsionava àquela jornada. O homem, então, como se já o tivesse separado, pôs o livro em suas mãos. Ele não poderia ter mesmo idéia do quanto esperara por aquele instante, quando poderia finalmente tocá-lo com suas próprias mãos, sentir a textura de suas páginas e sentir seu cheiro novo. Como alguém que acabara de cometer um crime, pôs o livro na bolsa e saiu, correndo para chegar em algum lugar seguro onde pudesse abri-lo. Queria tempo, desejava senti-lo com cuidado, aproveitando cada segundo daquele encontro. Chegou em casa, depois de trinta minutos da mais pura ansiedade, sentou em sua cama e entrou em contato com aquele mundo novo, prestes a fazer parte da sua vida.


Já não era mais menina com livro nem mulher com amante. Era simplesmente um ser humano diante de um mistério capaz de mudar sua vida, de dar um tom diferente à sua existência.

17 de jul de 2010

Mulheres Possíveis - Martha Medeiros

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido as refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe a noite, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, estudo, levo o carro no mecânico, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão, levo o cachorro passear e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar... curtir os filhos.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Mulher é mulher, não pode parecer um homem!
Se o trabalho é um pedaço de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher independente, fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.

Arnaldo Jabor

Hoje, refletindo sobre o efeito do nada sobre porra nenhuma, me dei conta de que este é o único país do mundo governado por um analfabeto e alcoólatra, que assinou uma reforma ortográfica e instituiu uma lei seca....

Doidas e santas - Martha Medeiros

"Estou no começo do meu desespero/e só vejo dois caminhos:/ou viro doida ou santa". São versos de Adélia Prado, retirados do poema A Serenata. Narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo o ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?".

Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam - terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?

Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???

Nem ela, caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do).

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar "the big one", aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio-pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.

8 de jul de 2010



Esta pergunta foi a vencedora em um congresso sobre vida sustentável.


Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos... Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?

7 de jul de 2010

Incomplete - Alanis Morissette



One day I'll find relief
I'll be arrived
And I'll be a friend to my friends
Who know how to be friends

One day I'll be at peace
I'll be enlightened
And I'll be married with children
And maybe adopt

One day I will be healed
I will gather my wounds
Forge the end of tragic comedy

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time
Of being forever incomplete

One day my mind will retreat
And I'll know God
And I'll be constantly one
With her night dusk and day

One day I'll be secure
Like the women I see
On their 30th anniversaries

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time
Of being forever incomplete

Ever unfolding
Ever expanding
Ever adventurous
And torturous
But never done

One day I will speak freely
I'll be less afraid
And measured outside of my poems
And lyrics and art

One day I will be faith-filled
I'll be trusting and spacious
Authentic and grounded
And whole

I have been running so sweaty my whole life
Urgent for a finish line
And I have been missing the rapture this whole time
Of being forever incomplete




Tradução

Um dia eu encontrarei alívio
Eu estarei atingida
E eu serei amiga dos meus amigos
que sabem como serem amigos

Um dia eu estarei em paz
Eu estarei esclarecida
E eu estarei casada, com crianças
e talvez adotadas

Um dia eu estarei curada
Eu colherei meus ferimentos
forjando o fim de uma trágica comédia

Eu estive correndo tão suada em toda a minha vida
Urgente por uma linha final
E eu tenho sentido saudades do enlevo todo esse tempo
Por ser para sempre incompleta

Um dia, minha mente irá regressar,
E eu conhecerei Deus
E eu serei constantemente aquela
com sua noturna penumbra e dia

Um dia eu estarei segura,
igual às mulheres que eu vejo
em seus trigésimos aniversários

Eu estive correndo tão suada em toda a minha vida
Urgente por uma linha final
E eu tenho sentido saudades do enlevo todo esse tempo
Por ser para sempre incompleta

Sempre germinando
Sempre expandindo
Sempre aventurosa
E tortuosa
Mas nunca feita

Um dia, Eu falarei livremente
Eu estarei com menos medo
E uniforme fora dos meus poemas
E letras e artes

Um dia eu estarei cheia de fé
Eu estarei confiando e vastamente
autêntica e estabilizada
e inteira

Eu estive correndo tão suada em toda a minha vida
Urgente por uma linha final
E eu tenho sentido saudades do enlevo todo esse tempo
Por ser para sempre incompleta

5 de jul de 2010

Bertold Brecht - Quem se defende



Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legitima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.

Bertold Brecht - O Analfabeto Político




O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

Bertold Brecht - I



Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem.

1 de jul de 2010

Mafalda - "Democracia"


Não amo ninguém - Cazuza




Se todo alguém que ama
Ama pra ser correspondido
Se todo alguém que eu amo
É como amar a lua inacessível
É que eu não amo ninguém
Não amo ninguém
Eu não amo ninguém, parece incrível
Não amo ninguém
E é só amor que eu respiro

28 de jun de 2010

Dez conselhos para os militantes da esquerda - Frei Betto

1. Mantenha viva a indignação.
Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada.
Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.

2. A cabeça pensa onde os pés pisam.
Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.

3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.
O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana. O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

4. Seja crítico sem perder a autocrítica.
Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros(as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema. Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos(as) companheiros(as).

5. Saiba a diferença entre militante e "militonto".
"Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais. O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

6. Seja rigoroso na ética da militância.
A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo - a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita. Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal. O verdadeiro militante - como Jesus, Gandhi, Che Guevara - é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

7. Alimente-se na tradição da esquerda.
É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.

8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.
Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça. Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que aparentemente ele não tenha razão.
São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada. Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria. A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.
Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta. Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar assim como Jesus amava, libertadoramente.

16 de jun de 2010

Doutores da Alegria - O engraçado é que é sério.


Sempre que vejo o documentário dos Doutores da Alegria, sinto uma coisa boa que não sei explicar. É como se eles tivessem o dom de tocar quem está assistindo da mesma forma que tocam os pacientes com quem se relacionam. E é como se eles conseguissem buscar o mais puro e simples que há dentro da gente. Como um verdadeiro palhaço.
Longe das amarras sociais, do aprisionamento a que nós mesmos nos submetemos. Como é difícil ser hoje em dia. Somos alguma coisa que criaram em nós, somos uma imagem que desejamos passar, somos a boa aparência, a lucidez, a normalidade, o comum. Deixamos de ser nós mesmos para sermos alguém que vive "em paz" nesse mundo. Mas que paz é essa? A que preço obtemos essa "paz"? Abdicamos de nós mesmos para vivermos em uma lucidez criada por alguém, que não faço a mínima ideia de quem seja. Retiramos muito da nossa individualidade, da nossa pureza, para convivermos. E o que é mais espantoso: essa convivência não se torna menos conflituosa com essa abdicação. Quando retiramos nossa loucura, nossa espontaneidade, o que fica é algo meio sem rosto, meio igual a tudo, meio igual a nada. Sim, estou incluída nisso também, mas é algo que me incomoda diariamente, que me faz querer ser, sem medo ou receio do que possa acontecer. No entanto, confesso que é preciso coragem, é necessária uma boa dose de coragem pra colocar a cara a tapa e mostrar que podemos ser sim, e não há quem impeça. Liberdade é isso. É abrir o coração sem medo, é ser mesmo ridículo, é não ter lógica, malícia, vaidade, receio. É ser um palhaço, um crítico social, cuja crítica consiste no fato de que não deve existir crítica alguma. É olhar pro outro e aceitá-lo completamente e ser também aceito.
Isso tudo pode parecer utópico, e eu até que estava me virando (bem?) sem a utopia. Mas um amigo meu essa semana me fez refletir sobre algumas coisas e teve a sensibilidade de me tocar com seu próprio sentimento. É realmente bom conviver com pessoas que exalam sentimento. Dessas opto por não me afastar nunca. Bem, o fato é que ele me mostrou a seguinte frase:

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."

(Eduardo Galeano)


Posso ser apenas mais uma sonhadora. Sim, são tempos difíceis para os sonhadores. Para mim também, não somente para você, cara Amelie. Mas eu sei que vai valer a pena. E isso basta.


Não deixe de conhecer esse trabalho fabuloso que os Doutores da Alegria realizam em diversos hospitais do Brasil. O site dos Doutores é: http://www.doutoresdaalegria.org.br/.

12 de jun de 2010

Ter tempo. Nossa, como é bom ter tempo. Tempo para poder pensar no nada, tempo para poder olhar qualquer simples detalhe que passaria despercebido na correria do cotidiano. Por que para mim é tão difícil abrir mão desses momentos? É inexplicavelmente uma necessidade, é como um sopro de vida que é em mim fundamental. Posso agora respirar e desligar o piloto automático.
Desacelerar é preciso. Saber olhar o mundo com olhos descansados também. Rejuvenesce a alma, preenche o espírito.
E escrever...
Escrever é meu ópio, meu remédio para o tédio e para o cansaço. Escrever é como dar vida a uma canção sem ritmo, é tirar uma parte de mim mesma que está em desacordo (ou não) com todo o conjunto. Eu amo escrever, amo o milagre de poder transmitir um pouco da minha alma a alguém, de afetar alguém, mesmo que seja pelo não gostar. Não escrevo para que alguém goste, escrevo porque é uma necessidade, porque não há viabilidade de viver sem as palavras.

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)

19 de mai de 2010

Quem dobrou seu para-quedas hoje?



Charles Plumb, era piloto de um bombardeiro na guerra do Vietnã.

Depois de muitas missões de combate, seu avião foi derrubado por um míssil. Plumb saltou de pára-quedas, foi capturado e passou 6 anos numa prisão norte-vietnamita.

Ao retornar aos Estados Unidos, passou a dar palestras relatando sua odisséia e o que aprendera na prisão. Certo dia, num restaurante, foi saudado por um homem: "Olá, você é Charles Plumb, era piloto no Vietnã e foi derrubado, não é mesmo?" "Sim, como sabe?" perguntou Plumb. "Era eu que dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem, não é verdade?" Plumb quase se afogou de surpresa e com muita gratidão respondeu: "Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje." Ao ficar sozinho naquela noite, Plumb não conseguia dormir, pensando e perguntando-se: Quantas vezes vi esse homem no porta-aviões e nunca lhe disse "bom dia"? Eu era um piloto arrogante e ele um simples marinheiro. Pensou, também, nas horas que o marinheiro passou humildemente no barco enrolando os fios de seda de vários pára-quedas, tendo em suas mãos a vida de alguém que não conhecia.

Agora, Plumb inicia suas palestras perguntando à sua platéia: "Quem dobrou seu pára-quedas hoje?" Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos seguir adiante. Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: um físico, um emocional, um mental e até um espiritual. Às vezes, nos desafios que a vida nos apresenta diariamente, perdemos de vista o que é verdadeiramente importante e as pessoas que nos salvam no momento oportuno sem que lhes tenhamos pedido. Deixamos de saudar, de agradecer, de felicitar alguém ou ainda simplesmente de dizer algo amável.

Hoje, esta semana, este ano, cada dia, procura dar-te conta de quem prepara teu pára-quedas e agradecer-lhe. As pessoas ao teu redor notarão esse gesto e te retribuirão preparando teu pára-quedas com esse mesmo afeto. Todos precisamos uns dos outros, por isso, mostra-lhes tua gratidão. Às vezes as coisas mais importantes da vida dependem apenas de ações simples. Só um telefonema, um sorriso, um agradecimento, um gosto de você, um te amo. Obrigado por todos os favores que sem merecer recebi de ti e nunca te agradeci.

Obrigado por haver dobrado o meu pára-quedas.




Preciso dizer mais alguma coisa?

18 de mai de 2010

Oração ao Tempo - Caetano Veloso


Já que ando completamente sem tempo para postar aqui, resolvi fazer um post especial sobre o tempo com uma música que tenho escutado bastante ultimamente.


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

25 de abr de 2010

The Edukators



Jedes Herz ist eine revolutionäre Zelle.

(Todo coração é uma célula revolucionária.)

Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector



O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

São tempos difíceis para os sonhadores. (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)

Como pode um filme mudar a sua vida?

Esse é um questionamento que me faço com freqüência, e, buscando a resposta, percebo que só posso encontrá-la por meio de uma análise dos filmes que alteraram significativamente a minha percepção do mundo.



Le fabuleux destin d'Amélie Poulain (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) é certamente um desses filmes. Não somente pelo sentimentalismo e pela simplicidade, que são suas marcas principais, mas também pela identificação surpreendente que tive com a personagem. É como se Amélie pudesse traduzir muitas das minhas mais freqüentes indagações e tivesse a capacidade de oferecer possibilidades, chances de escolha, alternativas a meus questionamentos cotidianos. A sensibilidade de uma garota que recuperou a própria vida dando vida aos outros: é esse o ponto chave do filme. A maneira como Amélie interfere na vida alheia, com a intenção de simplesmente ajudar, de fornecer o sopro de vida que muitas vezes lhe falta, e a tradução de seus pensamentos e sentimentos fazem com que sejamos transportados para dentro de nós mesmos e promovem uma reflexão tão profunda quanto o próprio sentido do filme. Para aqueles que podem sentir o sopro de vida, que podem escutar corações batendo, que podem ler olhares e perceber almas, esse certamente é um dos melhores filmes.

Como pode O Fabuloso Destino de Amélie Poulain mudar a sua vida?
Impossível transpor em palavras. Só sentindo pra saber.



Pintor: "Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes."
Amelie: "Hummm, pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros."
Pintor: "E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?"


A vida é o interminável ensaio de uma peça que nunca se realizará.


Quando o dedo aponta para o céu o idiota olha o dedo.



Se Amelie prefere viver no sonho e ser uma moça introvertida é direito dela. Pois estragar a própria vida é um direito inalienável.

Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida...

Então, pequena Amélie, os teus ossos não são feitos de vidro. Podes levar algumas pancadas da vida. Se deixares escapar esta oportunidade, eventualmente o teu coração vai ficar tão seco e quebradiço como o meu esqueleto. Então, vai apanhá-lo!





Amélie vai ao cinema de vez em quando, às sextas. "Gosto de observar na escuridão as caras dos outros espectadores. E de notar o pequeno pormenor que mais ninquém verá. Mas odeio nos antigos filmes americanos que os condutores não olhem para a estrada." Amélie não tem nenhum homem; Experimentou uma ou duas vezes mas o resultado ficou aquém da expectativa. Em vez disso cultiva um gosto especial pelos pequenos prazeres. Mergulhar a mão em sacas de grão, partir o queimado do leite-creme com a ponta da colher...Fazer ricochetes na água do Canal St.Martin.






Sem você a emoção de hoje seria a pele morta da emoção do passado.

20 de abr de 2010

Noite na Taverna - Álvares de Azevedo

Melhores trechos...


E ela!?... ela no meio de sua melancolia, de sua tristeza e sua palidez, ela sorria as vezes quando cismava sozinha, mas era um sorrir tão triste que doía.

Meu amor era sempre o mesmo: eram sempre noites de esperança e de sede que me banhavam de lágrimas o travesseiro. Só as vezes a sombra de um remorso me passava, mas a imagem dela dissipava todas essas névoas...

E curvei me no abismo: tudo era negro, o vento lá gemia embaixo nos ramos desnudos, nas urzes, nos espinhais ressequidos, e a torrente lá chocalhava no fundo escumando nas pedras.
Eu tive medo.

O passado é o que foi, é a flor que murchou, o sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. Lágrimas a ele? fora loucura! Que durma com suas lembranças negras! revivam: acordem apenas os miosótis abertos naquele pântano! Sobreágüe naquele não ser o eflúvio de alguma lembrança pura!

Quem Vai Queimar? - Pitty

E queimem as bruxas
Deixa queimar...
E queimem as bruxas
Quem vai queimar?

Quem ordena a execução
Não acende a fogueira



É, Igreja Católica. A casa caiu.

19 de abr de 2010

Escrever.



O que fazer com o que eu sinto? Não há nada a fazer senão escrever... Não há outro meio de expressar esse fluido inexplicável capaz de alterar e desequilibrar toda uma estrutura perfeitamente montada e organizada. Não há melhor maneira de externar uma desorganização do que escrever. Afinal, as palavras podem ser bem desordenadas, podem excluir o nexo e o sentido daquilo que se quer transmitir. Escrever é dar vida ao sentimento, é deixar que ele transborde os limites do corpo e da mente e passe para outro plano: o do leitor. Quem lê é receptor dessa energia estranha, que se enche de várias subjetividades quantos forem os leitores. Escrever é entregar a própria alma a um desconhecido destinatário, que, no fim, irá transformá-la em parte de sua própria existência.

A Sombra - Pitty


Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Stranger things have happened...

I can change, I can change, I can change, but who you want me to be?
I'm the same, I'm the same, I'm the same, oh do you want me to be?

You're not alone, dear loneliness
You forgot but I remember this
So stranger things have happened, I know


Foo Fighters - Stranger Things Have Happened



Essa música traduz um pouco do momento que estou vivenciando. A dura escolha de ser. Quem eu quero ser, afinal? Ser uma metamorfose ambulante tem lá seus prós, mas a falta de uma constância às vezes me incomoda, me força a escolher um caminho certo. Quem eu quero ser? Qual caminho escolher? Viver é uma sucessão de escolhas e caminhos incertos, que irão nos levar a lugares desconhecidos, cheios de mistérios e sentimentos. Penso que não há caminho certo ou errado, não há melhor ou pior caminho, e é isso que tanto me aflige, porque não há critério de escolha.
Sempre busquei tomar as rédeas da minha própria vida, mas ela tem me desnorteado e me feito tropeçar nos caminhos que não escolhi, que segui cegamente por um motivo ou outro. Não sei onde estou pisando, estou ébria nesta realidade louca que meu sistema imunológico desenvolveu. Não sei onde me encontro, não sei. Será que perder-se também é mesmo caminho, minha cara Clarice?

7 de abr de 2010

Tua - Por Livia Leal




Silenciosamente e
Desesperadamente
eu tento
exprimir o inexprimível
E as palavras que me saem
são poucas
são fracas
Ah! como eu queria
que elas pudessem dizer-te o que sinto
mergulhada em mim
Que ausência perturbadora!
Contar-te onde me procuro
e onde não me encontro
Para que pudesses me ver
Eu
e somente
e só
e simplesmente
e toda
tua.

Mais um dia e a poesia ainda sorri pra mim. A compreensão está muito além dos sentidos. Os pássaros cantando. Tão incomum e tão divino é ver a vida como um pássaro cantante. E, no entanto, quantos pássaros cantam! E quanta vida há que pensamos não poder alcançar. E o sentimento que existe, ele todo, pode. E nós não vemos; talvez não saibamos. Mas poesia não basta; esperança, também. A batalha começa mesmo com um passo único.

Hoje teremos um bom dia. O sol saiu, os pássaros cantam. Posso ouvi-los agora mesmo. O seu sorriso pode ser um passo único.

6 de abr de 2010

Uma música chuvosa para um dia chuvoso...



Try Again - Keane

I fell asleep on a late night train
I missed my stop and I went round again
Why would I want to see you now?
To fix it up, make it up somehow.

Baby I'll try again, try again
Baby I die every night, every time

What I was isn't what I am
I'd change back but I don't know if I can

Still I'll try, try again, try again
Baby I die every night, every time

But I was made the way I am
I'm not a stone; I'm just a man
Lay down your arms and I will lay down mine
Rip back the time that we've been wasting

God I wish you could see me now
You'd pick me up and you'd sort me out

3 de abr de 2010

Morte.

Motivo - Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.






Um dia todos nós estaremos mudos, essa é a lei da vida. E o que fica é a saudade da melodia, do ritmo da pessoa que se foi. Fica um chiado meio angustiante, o eco da música que um dia foi cantada. Quem vai leva sua voz. Para quem fica, só resta escutar o som que vai se apagando aos poucos até não restar mais ruídos.
Este post é dedicado a todos aqueles que ainda escutam melodias que já se foram.
Porque a saudade nada mais é do que um eco infinito de um som que já se foi.

31 de mar de 2010

Temos que ser líquidos




Ainda lembro das noites em que ele passou em claro porque eu estava passando mal. Ainda lembro de quando ele me pegava nos braços e me fazia dormir em seu colo. É impossível esquecer meu pai. Um homem simples, sem muitas elegâncias. Mas um homem. Um homem de verdade. Olhar para o meu pai era ver o perfil de homem que considero justo. Um homem que, mesmo humilde, guardava uma riqueza imensa dentro de si e que, querendo ou não, espalhava essa riqueza por onde passava. No caso de meu pai, dividir era multiplicar. Com ele não tinha tempo ruim, chuvas tempestuosas demais ou chances de desistência. Aos onze anos tive a prova disso.
Ao quase perdê-lo, eu vi o que até então não tinha percebido: meu pai era um herói. E eu era uma adolescente no auge da rebeldia, com idéias revolucionárias, querendo quebrar as regras e fazer o meu mundo do meu próprio jeito. E foi então que tive a maior lição da minha vida. Não sei bem se ele mesmo percebeu o posterior efeito dessas palavras, mas o que ele dissera foi um marco na minha história.
Eu tinha todas as idéias supostamente inovadoras e inconseqüentes da adolescência e acabava entrando em atrito com a Livia que eu queria ser e a Livia que o mundo pedia que eu fosse. E meu pai foi uma peça extremamente importante nisso. Certa vez ele me dissera:
- Livia, na vida nós temos que ser líquidos. Por exemplo, a água: se eu a coloco em um copo, ela assume a forma do copo, mas se eu a colocar em uma jarra, ela ficará do formato da jarra. E é assim com a gente. Nós temos que nos adaptar. Mas não podemos ser tão volúveis quanto os gases e nem tão rígidos quanto os sólidos.
E foi assim que eu aprendi a viver. Me adaptei facilmente à doutrina militar, à uma posterior rotina mais desgastante. Descobri que eu poderia revolucionar sim, mas de uma maneira mais líquida. Não adianta querer mudanças radicais, e também não devemos ficar alienados. Devemos absorver as informações e observar o mundo, aprendendo com tudo e com todos. Com meu pai, aprendi a não discriminar. Ele me ensinou a ser líquido. E foi assim que me tornei quem sou hoje.
Nos meus dezessete anos de existência, tive que fazer escolhas muito importantes e, graças ao meu pai (juntamente com a minha mãe), pude avaliar os melhores caminhos. Aprendi a ter flexibilidade e, o mais importante de tudo: despertei a bondade que havia dentro de mim. E tudo por causa de gestos, de pequenos detalhes que às vezes passam despercebidos no dia-a-dia. O que sou é o reflexo dos pequenos atos de meus pais que me serviram de exemplo. O que me tornei é fruto da convivência com esses dois anjos que guiam o meu caminho.
Talvez quando ele me disse para ser líquido não imaginava a repercussão que isso teria para mim. Mas foi com ele que aprendi as maiores lições da minha vida. Com ele, eu aprendi a ser eu mesma e aprendi a aceitar quem a outra pessoa é. Aprendi com meu pai que a vida não é nada fácil, mas quando se tem amor e bondade, sempre há uma nova chance. E é assim que eu encaro cada amanhecer: como um conselho sensato de meu pai, como a esperança e a bondade que vejo em seu olhar. E cada anoitecer é como um beijo de boa noite, embalado ao som de Roberto Carlos: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer...”.

Por Livia Teixeira Leal.
Dedicado ao meu grande exemplo, meu pai.