27 de jul de 2010

O Livro - Livia leal


Ela tinha revirado tudo. Revirado a bolsa, a carteira, o armário, a alma. Ela precisava ter aquele livro. Não se sabia o porquê de tamanho desejo, mas ela estava realmente decidida a conquistá-lo. Conquistar é a palavra certa. Ter e somente possuí-lo não era o suficiente; ela precisava descobrir um meio de chegar até ele, de desvendá-lo em sua sutil condição de livro. Descobri-lo era um mistério que ela queria assumir. Atravessou ruas, avançou sinais entre os carros, andava a passos largos, procurando-o. Passou pela Sete de Setembro, avistou uma Livraria Saraiva.


- Não, moça, no momento não há nenhum exemplar disponível nessa loja, mas a senhora pode encomendar.


Não, ela não poderia encomendá-lo. Ela precisava dele no presente, ela sentia uma necessidade tão sufocante que só acabaria ao tê-lo em mãos. Andou um pouco mais, com o coração disparado, até a Livraria da Travessa. Depois de muita procura, a inevitável decepção:


- Não o temos aqui.


Era visível a desolação em seu olhar, a tristeza que já não poderia esconder. Ela iria até o fim do mundo para consegui-lo. Naquele estado de necessidade, tudo era possível. Até que veio a luz, o feixe de esperança por que tanto aguardara.


- Não tem esse livro aqui, mas tem um exemplar disponível em outra filial nossa, a uns 15 minutos daqui.


A distância não importava mesmo. Agradeceu. Saiu apressada em busca daquilo que estava fazendo com que perdesse o ar. Não se sabia de onde tirava fôlego para andar na Rio Branco, desviando sempre de outras pessoas mais afoitas ainda por motivos que nem poderia passar por sua cabeça neste momento. Era só ele que importava. Por ele, ela correria contra o tempo e contra qualquer obstáculo. Somente para tê-lo em mãos e, enfim, saboreá-lo. O coração nem cabia no peito, os pés pareciam flutuar em uma corrente que a levava àquilo, que era mais que um sonho. Cada minuto que se passava era menos tempo em que ainda estava separada dele; e como era insustentável a falta que ele fazia! Já quase na Presidente Vargas, avistara a livraria. Era lá onde ele repousava, esperando pela sua dona. E era para lá que ela deveria correr. Tirou o casaco e percebeu que o suor molhava sua blusa e, como ventava, ficou arrepiada, um arrepio que se misturava à sensação de frio na barriga, de um nervoso bom de algo que estava prestes a ocorrer: o encontro. Parou no balcão, e disse o nome que a impulsionava àquela jornada. O homem, então, como se já o tivesse separado, pôs o livro em suas mãos. Ele não poderia ter mesmo idéia do quanto esperara por aquele instante, quando poderia finalmente tocá-lo com suas próprias mãos, sentir a textura de suas páginas e sentir seu cheiro novo. Como alguém que acabara de cometer um crime, pôs o livro na bolsa e saiu, correndo para chegar em algum lugar seguro onde pudesse abri-lo. Queria tempo, desejava senti-lo com cuidado, aproveitando cada segundo daquele encontro. Chegou em casa, depois de trinta minutos da mais pura ansiedade, sentou em sua cama e entrou em contato com aquele mundo novo, prestes a fazer parte da sua vida.


Já não era mais menina com livro nem mulher com amante. Era simplesmente um ser humano diante de um mistério capaz de mudar sua vida, de dar um tom diferente à sua existência.

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