15 de ago de 2010


'Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.'

Franz Kafka

Nelson Mandela


(...)

Não importa quantas vezes desatino
nem quantas vezes a vida me espalma
Sou o mestre e senhor do meu destino
Sou o capitão de minha alma.


Vendo o filme Invictus, eis que me deparo com esse trecho do poema escrito por Mandela na prisão. Certamente esse é um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Recomendo a todos. E quanto ao poema... ah... preciso dizer alguma coisa?

14 de ago de 2010

O cego - Livia Leal


Hoje vi um cego no ônibus, no caminho de volta para casa. Pensei: deve ser difícil não ver. Sim, torna as coisas muito mais complicadas a deficiência da visão. No entanto, mais triste mesmo é não enxergar. “O pior cego é aquele que não quer ver”. Eu completaria o ditado: o verdadeiro cego é aquele que insiste em não ver o outro, é aquele que finge que não viu ou dissimula ter visto.

Enxerga-se melhor de olhos fechados e de coração aberto. Ver é aceitar; enxergar é compreender.

Queria ser cega por um dia. Dar o contorno que desejo à vida, à existência humana. Bom mesmo é enxergar com a mão, com o coração, com o espírito. A visão é uma cruel forma de confundir o homem: muitas vezes a luz é escuridão.

Aprendi, finalmente, que, de tudo que se vê, fica apenas o brilho de um sorriso, a cor viva e intensa de um dia de sol, o abraço de amor alheio: coisas que só um cego para as desavenças do mundo é capaz de enxergar.

7 de ago de 2010

Mensagens a Fernando Sabino - Hélio Pellegrino


O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.

Alice no País das Maravilhas


"... - Gatinho de Cheshire - começou a dizer timidamente, sem ter certeza se ele gostaria de ser tratado assim, mas ele apenas abriu um pouco mais o sorriso.
"Ótimo, parece que gostou", pensou ela, e prosseguiu:
- Podia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair daqui?
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice
- Nesse caso, não importa por onde você vá - disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá - disse o Gato - , desde que você ande durante algum tempo.
Isso Alice viu que era impossível negar. Tentou, pois, outra pergunta. - Que espécie de gente vive por aqui?
- Naquela direção - disse o Gato, apontando com a pata direita - mora um Chapeleiro. E naquela - acrescentou, levantando a outra pata - mora a Lebre de Março. Visite um ou o outro, tanto faz: ambos são loucos.
- Mas eu não quero me encontrar com gente louca - observou Alice.
- Você não pode evitar isso - replicou o Gato.
- Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca.
- Como sabe que eu sou louca? - indagou Alice.
- Deve ser - disse o Gato, - ou não teria vindo por aqui. (...)"

2 de ago de 2010

Toca Raul!




E quando todos praguejavam contra o frio
Eu fiz a cama na varanda...

Eu nasci há dez mil anos atrás - Raul Seixas



Desconstruir... Nada melhor para desconstruir do que Raul.

"Sou uma criança, não entendo nada" - Carolina Turboli

Eu só sei que cresci porque as pessoas não parecem mais eternas e porque meus assuntos limitaram-se desincrivelmente – por que quando eu era criança e adolescente eu poderia falar horas sobre (o) nada com qualquer pessoa?

Eu só sei que eu cresci porque o tempo corre afobado e as tardes não parecem mais longuíssimos repousos discretos.

Eu só sei que cresci porque esqueci como é que faz pra se apaixonar – e antigamente eu tinha que aprender a parar, louca apaixonada que eu era, por tudo e por todos.

Lembra de quando a gente conhecia alguém e numa conversa já queria levar a pessoa pra vida inteira? De quando a gente desviava a rota pra não passar na frente de quem a gente gostava? De quando não ir numa festa parecia punição eterna... Dos dias passados em claro por causa de tristezas nobres, de noites macias que viram pedaços de céu tatuados na memória, de tardes jogadas em almofadas e travesseiros, de saudades que pareciam fatais – pra algumas quase que fiz testamento.

Hoje fico aqui, vivendo do mais ou menos, me alimentando de felicidades diárias que não dão massa nem pros sonhos de uma semana inteira. E o pior: não dói. Vou processar quem me anestesiou da vida, que adulto adora um processo.

Eu costumava gostar dos processos, de ver as coisas sendo: casulo ainda não-borboleta. De tanto ver as coisas crescendo eu também cresci; cresceram os olhos pros fins, deixando de lado os meios - e olha que do fim espero ainda estar longe, e ser muito menos adulto quando ele chegar (espero, porém, que sem fraldas).

Mas o que me tira o sono (adulto cristão = insônia culposa) é que eu só sei que eu cresci porque ainda existe uma criança que me grita todos os dias aqui dentro, que quando lê Vinicius de Moraes chora por causa do seu antigo grande amor, que gosta de pegar chuva só para girar e desobedecer, que adora brincar nos meus olhos e que me lembra sorrindo, arteira e artista, que de nada valerão os meus dias se eu não puder compartilhá-los com outras crianças, escondidas em outros adultos, talvez tão desolados e perdidos quanto eu...


Por uma criança que consegue, muitas vezes, descobrir a criança que há em mim.

“Cada um escolhe a vida que quer levar” - Livia Leal

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
Se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês


(Fátima - Capital Inicial)



Tudo era ilusão naquela vida de momentos finitos e sensações passageiras. Tudo que havia se resumia em um vazio sem destino, um oco nada, um abismo sem fim. Era preciso mudar? Na espera sufocante, aguardava um livro capaz de mudar sua vida, uma música que a fizesse dançar na Lua, um suspiro de amor, o frio na barriga, o medo aterrorizante... Queria de volta a dor de sentir, o sofrer que provoca a pulsação, o suor frio da angústia e do incontrolável desejar. Afinal, de que valeria a vida sem isso? Era preciso mudar, sim. Era preciso valorizar, nadar contra a corrente, insistir no terrível sofrimento de ser. Era necessário resgatar o que havia sido deixado para trás. “Cada um escolhe a vida que quer levar”. Ela escolheria agora o caminho mais íngreme, mas que lhe renderia aquele sopro de vida que faltava, a música, a dança, o sentimento, e - por que não?- o amor. Deixava de engolir sua existência, para, então, aprender a saboreá-la.