14 de ago de 2010

O cego - Livia Leal


Hoje vi um cego no ônibus, no caminho de volta para casa. Pensei: deve ser difícil não ver. Sim, torna as coisas muito mais complicadas a deficiência da visão. No entanto, mais triste mesmo é não enxergar. “O pior cego é aquele que não quer ver”. Eu completaria o ditado: o verdadeiro cego é aquele que insiste em não ver o outro, é aquele que finge que não viu ou dissimula ter visto.

Enxerga-se melhor de olhos fechados e de coração aberto. Ver é aceitar; enxergar é compreender.

Queria ser cega por um dia. Dar o contorno que desejo à vida, à existência humana. Bom mesmo é enxergar com a mão, com o coração, com o espírito. A visão é uma cruel forma de confundir o homem: muitas vezes a luz é escuridão.

Aprendi, finalmente, que, de tudo que se vê, fica apenas o brilho de um sorriso, a cor viva e intensa de um dia de sol, o abraço de amor alheio: coisas que só um cego para as desavenças do mundo é capaz de enxergar.

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