19 de abr. de 2010

A Sombra - Pitty


Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Stranger things have happened...

I can change, I can change, I can change, but who you want me to be?
I'm the same, I'm the same, I'm the same, oh do you want me to be?

You're not alone, dear loneliness
You forgot but I remember this
So stranger things have happened, I know


Foo Fighters - Stranger Things Have Happened



Essa música traduz um pouco do momento que estou vivenciando. A dura escolha de ser. Quem eu quero ser, afinal? Ser uma metamorfose ambulante tem lá seus prós, mas a falta de uma constância às vezes me incomoda, me força a escolher um caminho certo. Quem eu quero ser? Qual caminho escolher? Viver é uma sucessão de escolhas e caminhos incertos, que irão nos levar a lugares desconhecidos, cheios de mistérios e sentimentos. Penso que não há caminho certo ou errado, não há melhor ou pior caminho, e é isso que tanto me aflige, porque não há critério de escolha.
Sempre busquei tomar as rédeas da minha própria vida, mas ela tem me desnorteado e me feito tropeçar nos caminhos que não escolhi, que segui cegamente por um motivo ou outro. Não sei onde estou pisando, estou ébria nesta realidade louca que meu sistema imunológico desenvolveu. Não sei onde me encontro, não sei. Será que perder-se também é mesmo caminho, minha cara Clarice?

7 de abr. de 2010

Tua - Por Livia Leal




Silenciosamente e
Desesperadamente
eu tento
exprimir o inexprimível
E as palavras que me saem
são poucas
são fracas
Ah! como eu queria
que elas pudessem dizer-te o que sinto
mergulhada em mim
Que ausência perturbadora!
Contar-te onde me procuro
e onde não me encontro
Para que pudesses me ver
Eu
e somente
e só
e simplesmente
e toda
tua.

Mais um dia e a poesia ainda sorri pra mim. A compreensão está muito além dos sentidos. Os pássaros cantando. Tão incomum e tão divino é ver a vida como um pássaro cantante. E, no entanto, quantos pássaros cantam! E quanta vida há que pensamos não poder alcançar. E o sentimento que existe, ele todo, pode. E nós não vemos; talvez não saibamos. Mas poesia não basta; esperança, também. A batalha começa mesmo com um passo único.

Hoje teremos um bom dia. O sol saiu, os pássaros cantam. Posso ouvi-los agora mesmo. O seu sorriso pode ser um passo único.

6 de abr. de 2010

Uma música chuvosa para um dia chuvoso...



Try Again - Keane

I fell asleep on a late night train
I missed my stop and I went round again
Why would I want to see you now?
To fix it up, make it up somehow.

Baby I'll try again, try again
Baby I die every night, every time

What I was isn't what I am
I'd change back but I don't know if I can

Still I'll try, try again, try again
Baby I die every night, every time

But I was made the way I am
I'm not a stone; I'm just a man
Lay down your arms and I will lay down mine
Rip back the time that we've been wasting

God I wish you could see me now
You'd pick me up and you'd sort me out

3 de abr. de 2010

Morte.

Motivo - Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.






Um dia todos nós estaremos mudos, essa é a lei da vida. E o que fica é a saudade da melodia, do ritmo da pessoa que se foi. Fica um chiado meio angustiante, o eco da música que um dia foi cantada. Quem vai leva sua voz. Para quem fica, só resta escutar o som que vai se apagando aos poucos até não restar mais ruídos.
Este post é dedicado a todos aqueles que ainda escutam melodias que já se foram.
Porque a saudade nada mais é do que um eco infinito de um som que já se foi.

31 de mar. de 2010

Temos que ser líquidos




Ainda lembro das noites em que ele passou em claro porque eu estava passando mal. Ainda lembro de quando ele me pegava nos braços e me fazia dormir em seu colo. É impossível esquecer meu pai. Um homem simples, sem muitas elegâncias. Mas um homem. Um homem de verdade. Olhar para o meu pai era ver o perfil de homem que considero justo. Um homem que, mesmo humilde, guardava uma riqueza imensa dentro de si e que, querendo ou não, espalhava essa riqueza por onde passava. No caso de meu pai, dividir era multiplicar. Com ele não tinha tempo ruim, chuvas tempestuosas demais ou chances de desistência. Aos onze anos tive a prova disso.
Ao quase perdê-lo, eu vi o que até então não tinha percebido: meu pai era um herói. E eu era uma adolescente no auge da rebeldia, com idéias revolucionárias, querendo quebrar as regras e fazer o meu mundo do meu próprio jeito. E foi então que tive a maior lição da minha vida. Não sei bem se ele mesmo percebeu o posterior efeito dessas palavras, mas o que ele dissera foi um marco na minha história.
Eu tinha todas as idéias supostamente inovadoras e inconseqüentes da adolescência e acabava entrando em atrito com a Livia que eu queria ser e a Livia que o mundo pedia que eu fosse. E meu pai foi uma peça extremamente importante nisso. Certa vez ele me dissera:
- Livia, na vida nós temos que ser líquidos. Por exemplo, a água: se eu a coloco em um copo, ela assume a forma do copo, mas se eu a colocar em uma jarra, ela ficará do formato da jarra. E é assim com a gente. Nós temos que nos adaptar. Mas não podemos ser tão volúveis quanto os gases e nem tão rígidos quanto os sólidos.
E foi assim que eu aprendi a viver. Me adaptei facilmente à doutrina militar, à uma posterior rotina mais desgastante. Descobri que eu poderia revolucionar sim, mas de uma maneira mais líquida. Não adianta querer mudanças radicais, e também não devemos ficar alienados. Devemos absorver as informações e observar o mundo, aprendendo com tudo e com todos. Com meu pai, aprendi a não discriminar. Ele me ensinou a ser líquido. E foi assim que me tornei quem sou hoje.
Nos meus dezessete anos de existência, tive que fazer escolhas muito importantes e, graças ao meu pai (juntamente com a minha mãe), pude avaliar os melhores caminhos. Aprendi a ter flexibilidade e, o mais importante de tudo: despertei a bondade que havia dentro de mim. E tudo por causa de gestos, de pequenos detalhes que às vezes passam despercebidos no dia-a-dia. O que sou é o reflexo dos pequenos atos de meus pais que me serviram de exemplo. O que me tornei é fruto da convivência com esses dois anjos que guiam o meu caminho.
Talvez quando ele me disse para ser líquido não imaginava a repercussão que isso teria para mim. Mas foi com ele que aprendi as maiores lições da minha vida. Com ele, eu aprendi a ser eu mesma e aprendi a aceitar quem a outra pessoa é. Aprendi com meu pai que a vida não é nada fácil, mas quando se tem amor e bondade, sempre há uma nova chance. E é assim que eu encaro cada amanhecer: como um conselho sensato de meu pai, como a esperança e a bondade que vejo em seu olhar. E cada anoitecer é como um beijo de boa noite, embalado ao som de Roberto Carlos: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer...”.

Por Livia Teixeira Leal.
Dedicado ao meu grande exemplo, meu pai.

Mãe






Dizer essa palavra é mergulhar no infinito. É percorrer por entre as origens do ser. Na verdade, o cordão umbilical nunca deveria ser cortado. Na verdade, não, minto. Ele nunca o é. Há algo na palavra "mãe" que não sei explicar. Quando a digo ou quando a ouço, me vêm à cabeça idéias como carinho, proteção, cuidado. Mas há uma em especial, uma que se resume tudo apenas em: ligação. E, entre tudo o que poderia ser imaginado, eu penso apenas no tal do cordão umbilical. Pelo que sei, é dele que o feto recebe os nutrientes necessários para viver. Mas não consigo vê-lo dessa forma tão "biológica". E, ao pensar em tudo isso, percebo que recebo ainda os tais nutrientes necessários para viver. Sem o apego, sem o amor, sem os conselhos, sem a força de minha mãe, o que seria de mim? Morreria sem seu abraço, adoeceria sem seu carinho e não existiria sem a ligação "mãe e filha". Portanto, convenhamos, é justo e racional duvidar do corte do cordão. Há uma ligação que transcende todo o procedimento medicinal no momento do parto. E, te digo com toda a certeza, nem o médico, nem ninguém é capaz de destruí-la. Acredito na permanência do cordão. E há os que me acham louca, desvairada, desinformada. Não me importo. Porque ainda o sinto aqui. Me sinto ainda recebendo os nutrientes de minha mãe. Me sinto crescer aos poucos, mas ainda me sinto naquela barriga. Me sinto protegida, amada. Se me sinto fraca, ganho força de seu olhar. Se me sinto triste ou desolada, encontro esperança em suas palavras. Ou até mesmo em seu silêncio. Quem possui a ligação da qual falo não precisa tanto assim das palavras. O silêncio, o gesto, o olhar bastam. E, se algum dia, alguém me perguntar se estou só, poderei ter a completa convicção de dizer que "não". E direi simplesmente: "sei que meu cordão umbilical não foi cortado, e me basta saber que minha mãe está lá do outro lado, e sempre estará". E, com um sorriso gentil nos lábios e uma enorme paz no coração, irei embora, com a esperança de que um dia essa pessoa sinta o mesmo, até sem saber o porquê.

"Você pode sentir?"

Por Livia Teixeira Leal.

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde



E por falar em desconstrução...

O livro de Oscar Wilde é fascinante e intrigante. Quando comecei a lê-lo não consegui mais parar, como se houvesse algo que me atraísse para a história, que me fizesse sentir da mesma forma que o personagem Dorian. É impossível ser a mesma pessoa depois de ler este livro. Ele modifica completamente visões de mundo e faz com que o leitor duvide de suas próprias convicções e princípios e ponha em questão uma série de preceitos morais e éticos.
Leitura obrigatória.

Recomendo, para quem tiver preguiça de ler o livro, o filme homônimo feito em 1945, que foi bastante fiel à história. A versão produzida em 2009 ficou extremamente sensacionalista e fugiu completamente da lógica do livro na minha opinião. Por isso, não a recomendo.

O link para download do filme de 1945 é esse: http://filmeedownload.blogspot.com/2009/05/o-retrato-de-dorian-gray-1945.html

Pode-se também baixar o livro em: http://www.reidoebook.com/2009/08/o-retrato-de-dorian-gray-oscar-wilde.html



As melhores partes do livro pra mim...



A coisa mais banal adquire encanto simplesmente quando não revelada.

A naturalidade não é mais do que uma pose, a pose mais irritante que conheço.

A consciência e a covardia são de fato a mesma coisa. A consciência é a marca comercial da firma. Mais nada.

Eu estabeleço uma norma para diferenciar bem as pessoas. Escolho os amigos pela beleza, os conhecidos pelas qualidades de caráter, e os inimigos pelas de inteligência. Todo o cuidado é pouco na escolha dos inimigos. Não tenho um único que seja estúpido. São todos homens de capacidade intelectual e, por conseguinte, todos me apreciam. Será isto vaidade?

Os que são fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor, os infiéis são precisamente aqueles que conhecem o seu lado trágico.

Porque exercer a nossa influência sobre alguém é darmos a própria alma. Esse alguém deixa de pensar com os pensamentos que Lhe são inerentes, ou de se inflamar com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são reais. Os seus pecados - se é que os pecados existem - são emprestados. Tal pessoa passa a ser o eco da música de outrem, o ator de um papel que não foi escrito para si. O objetivo da vida é o nosso desenvolvimento pessoal. Compreender perfeitamente a nossa natureza - é para isso que estamos cá neste mundo.

Somos punidos pelas nossas rejeições. Todo o impulso que esforçadamente asfixiamos fica a fermentar no nosso espírito, e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e mais não precisa, pois a ação é um processo de purificação. E nada fica, a não ser a lembrança de um prazer, ou o luxo de um pesar. Ceder a uma tentação é a única maneira de nos libertarmos dela. Se lhe resistimos, a alma enlanguesce, adoece com as saudades de tudo o que a si mesma proíbe, e de desejo por tudo o que as suas leis monstruosas converteram em monstruosidade e ilegalidade.

A única diferença entre um capricho e uma paixão para toda a vida é que o capricho dura um pouco mais.

Atualmente, as pessoas sabem o preço de tudo e não sabem o valor de coisa nenhuma.

Meu caro rapaz, pessoas frívolas são aquelas que amam só uma vez na vida. Àquilo a que chamam lealdade e fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade está para a vida emocional como a coerência está para a vida do intelecto, quer dizer, uma simples confissão de fracassos. A fidelidade! Preciso de a analisar um dia destes. Existe nela a paixão pela posse. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que os outros as pudessem apanhar.

Havia venenos tão sutis que para conhecer as suas propriedades era preciso adoecer, experimentando-os. Havia doenças tão invulgares que tinha que se passar por elas para se compreender a sua natureza. E, porém, a recompensa recebida era enorme! Como o mundo se tornava maravilhoso aos nossos olhos! Observar a lógica rigorosa e singular da paixão e a vida colorida e emocional do intelecto, atentar nos pontos em que se encontravam e se separavam, no ponto de concórdia e no de discórdia... que prazer havia em tudo isso! Não importava o custo que havia que pagar! Nunca era demasiado elevado o preço de qualquer sensação.
Estar apaixonado é ir para além de si mesmo.

Gostamos de pensar tão bem dos outros porque temos medo de nós mesmos. A base do otimismo é simplesmente o terror. Consideramo-nos generosos porque atribuímos ao nosso semelhante o mérito de possuir aquelas virtudes que poderão vir a beneficiar-nos.

Ser bom é estar de harmonia consigo mesmo. O conflito é ser obrigado a estar de harmonia com os outros.

Existem apenas dois tipos de pessoas que são realmente fascinantes: as que sabem absolutamente tudo e as que não sabem absolutamente nada.

Que importância tem o verdadeiro lapso de tempo? Só as pessoas fúteis precisam de anos para se libertarem de qualquer emoção. Um homem que seja senhor de si consegue pôr fim a uma tristeza com a mesma facilidade com que inventa um prazer. Não quero ficar à mercê das minhas emoções. Quero usá-las, desfrutá-las e dominá-las.

Além disso, cada vez que se ama é a única vez que já se amou. A diferença no objeto do amor não altera a integridade da paixão. Só lhe dá mais intensidade. Na melhor das hipóteses, podemos ter na vida apenas uma experiência magnífica, e o segredo da vida está em reproduzir essa experiência tantas vezes quanto possível.

A vida não é regida pela vontade ou pela intenção. A vida é uma questão de nervos, e fibras, e células que se formam lentamente, e onde o pensamento se oculta e a paixão constrói os seus sonhos. Você pode imaginar-se seguro, e considerar-se forte. Mas a tonalidade ocasional de um quarto ou de um céu matutino, um certo perfume de que um dia gostou e que traz consigo subtis recordações, um verso de um poema esquecido que reencontrou, a cadência de uma música que deixou de tocar... são essas as coisas de que dependem as nossas vidas.

30 de mar. de 2010

A desconstrução das certezas absolutas.

"Vocês, para entrarem aquim tiveram que dar respostas certas para as diversas perguntas do vestibular. Agora, nesses 5 anos, chegou a hora de desmontar todas as certezas; e, quando não restar mais nenhuma certeza absoluta, aí sim vocês poderão sair daqui e viver como seres humanos."


Professor Geraldo Prado, na Palestra sobre Acesso à Justiça realizada no dia 30/03/2010 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.



Nem preciso dizer o impacto dessas palavras na vida de qualquer pessoa. De fato, a descontrução das certezas absolutas é um dos passos para a aprendizagem, para o conhecimento, porque só quando nos permitimos conhecer e digerir novas ideias é que podemos adquirir um algo a mais. Muitas pessoas se apegam às suas convicções e simplesmente as carregam a vida inteira como corretas e absolutas. É uma opção, evidentemente. Longe de mim está julgar alguém pelas escolhas que faz na vida, mas quando se trata de aprendizagem, é certo que as "certezas absolutas" são uma pedra no caminho.
Achei bastante interessante a colocação do professor, principalmente porque ultimamente tenho acabado com muitas certezas e, graças a isso, tenho me proporcionado experiências muito esclarecedoras. No fundo, tudo é incerteza; nós é que temos essa necessidade de escolher algo como certo para nos dar um pouco de conforto e praticidade.
Discutir sem chegar a uma conclusão parece uma perda de tempo nos dias atuais. E as certezas absolutas são os pontos finais de qualquer discussão.