7 de jul. de 2014

O que os outros vão pensar? - Martha Medeiros

"Quando eu era pequena não tinha medo nenhum de bicho-papão, mula-sem-cabeça ou de bruxa malvada. Quem me aterrorizava era outro tipo de monstro. Eles atacavam em bando. Chamavam-se os outros. 

Nada podia ser mais danoso que os outros. As crianças acordavam de manhã já pensando neles. Quer dizer, as crianças não: as mamães. Era com os outros que elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos direito. Se não estudássemos, os outros nos chamariam de burros. Se não fôssemos amigos de toda a classe, os outros nos apelidariam de bicho-do-mato. Se não emprestássemos nossos brinquedos, os outros nunca mais brincariam conosco. E o pior é que as mães não mantinham a lógica do seu pensamento. 'Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos!' Eu lá quero saber dos outros? Só me interessa você! Era de pirar a cabeça de qualquer um. Não víamos a hora de crescer para nos vermos livres daquela perseguição. 

Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos que os outros estavam mais fortes do que nunca, ávidos por liquidar com nossa reputação. 

'Você vai na festa com esta calça toda furada? O que os outros vão dizer?' 

'Filha minha não viaja sozinha com o namorado, não vou deixar que vire comentário na boca dos outros’, dizia a mãe de minha namorada. 

Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo que os outros habitavam o planeta inteiro, estavam de olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas atitudes e ferrar com nossa felicidade. 

Hoje eles já não nos assustam tanto. Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo da nossa história. Mas ninguém em sã consciência pode se considerar totalmente indiferente a eles. Os outros ainda dizem horrores de nós. Ainda têm o poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar. A gente bem que tenta não levá-los a sério, mas sempre que bate uma vontade de entregar os pontos ou de chorar no meio de uma discussão, pensamos: Não vou dar este gostinho para os outros. 

Está para existir monstro mais funesto do que aquele que poda nossa liberdade."

1 de jul. de 2014

Pregos - Martha Medeiros




Foi de repente. Dois quadros que tenho na parede da sala despencaram juntos. Ninguém os havia tocado, nenhuma ventania naquele dia, nenhuma obra no prédio, nenhuma rachadura. Simplesmente cairam, depois de terem permanecidos seis anos inertes. Não consegui admitir essa gratuidade, fiquei procurando uma razão para a queda, havia de ter uma.

Poucos dias depois, numa dessas coincidências que não se explicam estava lendo um livro do italiano Alessandro Baricco, chamado novecentos, em que ele descrevia exatamente a mesma situação: "no silêncio mais absoluto, com tudo imóvel ao seu redor, nem sequer uma mosca se movendo, eles, zás. Não há uma causa. Por que precisamente nesse instante? Não se sabe. Zás. O que ocorre a um prego para que decida que já não pode mais?".

Alessandro Baricco, não procurava desvendar esse mistério, apenas diz que assim é. Um belo dia a gente se olha no espelho e descobre que está velho. A gente acorda de manhã e descobre que não ama mais a uma pessoa. Um avião passa no céu e a gente descobre que não pode ficar parado onde está nem mais um minuto. Zás. Nossos pregos já não nos seguram.

Costumamos chamar essa sensação de "cair a ficha", mas acho bem mais poética e avassaladora a analogia com os quadros na parede. Cair a ficha é se dar conta. Deixar cair os quadros é um pouco mais que isso. É perder a resistência, é reconhecer que há algo que já não podemos suportar. Não precisa ser necessariamente uma carga negativa, pode ser uma carga positiva, mas que nos obriga a solicitar mais força dentro de nós.

Nascemos, ficamos em pé, crescemos e a partir daí começamos a sustentar nossas inquietações, nossos desejos inconfessos, algum sofrimento silencioso e a enormidade de nossa paciência. Nossos pregos são feitos de material maciço, mas nunca se sabe quanto peso eles podem aguentar. O quanto podemos conosco? Uma boa definição de felicidade: Ser leve para si mesmo.

Sobre os meus quadros: foram recolocados na parede. Estão novamente fixos no mesmo lugar. Até que eles, ou eu, sejamos definitivamente vencidos pelo cansaço.

19 de jun. de 2014

A esperança é um ato de resistência. Resista.




"Você que de quando em vez chora à noitinha, na solidão da alcova. Você que se arrebenta no cumprimento das obrigações. Que perde um tempo danado desviando das porradas de todo dia.

Você que tem medo do arrependimento um minuto depois de tomar uma decisão. Você que esconde seu pavor de morrer só, de não ter onde cair morto, de lhe faltar um gato para puxar pelo rabo.

Você que ainda tem avós mas que pouco os vê. Que tem saudade da infância, que sente culpa por não telefonar mais seguido a seus pais. Você que já não tem pais e nem avós e quase só usa o telefone para pedir comida e responder que não, não quer assinar jornal nenhum.

Você que tem uma inveja inofensiva das pessoas que demonstram afeto. Você que queria ter mais irmãos, você que tem irmãos distantes, você que não tem irmão nenhum.

Você que ainda corta a carne no prato do filho ou da filha. Que tem criança pequena e conhece o medo doloroso de lhe faltar.

O universo que me perdoe, mas o tempo podia passar mais lento
Você que se deu conta de que nunca será um astronauta, um campeão olímpico, um astro do rock. Que acha superficial e sínico quem defende que não se deve dar esmolas, quando a quem pede esmolas nada se faz para ajudá-lo a seguir outro caminho.
Você que olhou nos olhos de um mendigo e sentiu um calafrio em algum lugar insuspeitado da alma.

Você que sentiu culpa por estar ocupado demais para ouvir um amigo quando ele mais honestamente precisou falar.

Você que já passou horas deitado no sofá de barriga para baixo, cutucando com a unha a sujeira leve que pousa e se instala impertinente nas ranhuras do chão. Você que enxerga rostos nos desenhos dos ladrilhos. Que observou a poeira flutuando contra a luz do sol e lembrou de um amor antigo. Você que não sabe lidar com um amor novo.

Você que, no mais das vezes, das conversas do dia a dia não ouve nada senão relinchos, cacarejos e conversas para boi dormir entupidas de preconceito e burrice.

Você que já se perguntou onde repousam as borboletas, enquanto imaginava sua vida secreta, e esse foi seu único instante de paz no dia confuso. Você que descobriu espantado que as baratas, quando esmagadas pelo chinelo da gente, liberam ovos que se transformarão em novas baratas que sobreviverão à hecatombe nuclear.

Você que já pediu a Deus um tempo para viajar a um lugar distante e ver o sol nascer de outro canto, na tentativa honesta de lavar com sabão e esponja a sua alma cheia de borras e sentimentos esverdeados, envelhecidos. Depois estendê-la no varal de um dia inteiro e deixá-la ali secando ao sol.

Você que já teve a impressão de que, se não fizer alguma coisa, a vida periga se transformar em um eterno domingo à noite.

Você…

Seja bem-vindo. Bem-vinda. Dá cá um abraço. Viver dói e se dói é porque você vive. Resista, deixe estar.

E acredite: para cada angústia há uma desforra gloriosa, esperando sua vez de vir ao mundo."


Fonte: Revista Bula

6 de jun. de 2014

Loucura é fundamental - Por Livia Leal

Prefiro ser louca a ser cínica. Ouso optar por continuar me espantando com o que está ao avesso, com o que rouba os nossos sonhos e é capaz de tirar o brilho do nosso olhar. Arrisco a me rebelar contra a palavra que julga, contra o gesto que oprime, contra o medo que cala e contra a conformação irresponsável. Quando se vive em um mundo em que se culpabiliza a vítima e se absolve o ladrão, corre-se o risco de naturalizar o sofrimento e de legitimar a própria violência. Então, acabamos nos tornando cínicos, viramos expectadores da dor, e, ainda que com boa dose de empatia, normalizamos o que nos desumaniza. E aí o sonho se torna sinônimo de ingenuidade, o espanto se transforma em covardia, e o sentimento passa a representar fraqueza. Em um mundo em que os dons são negligenciados e as virtudes são ridicularizadas, ficamos sujeitos ao “tanto faz”, ao “é só mais um”, enfim, à indiferença. Tem faltado imaginação, espontaneidade, e tem sobrado receio e calculismo. Tornou-se normal ter o dinheiro como única motivação, calar frente a um ato de injustiça, terceirizar a responsabilidade pela construção de um mundo mais fraterno. 

Se for assim, que me perdoem os cínicos, mas loucura é fundamental.

18 de dez. de 2013

O que não se aprende na escola - Por Livia Leal




Em meio a tantas teorias, discussões e doutrinas, subsiste o pobre do óbvio, já esquecido e fatigado; ninguém fala mais no que seria evidente. No entanto, meus caros amigos, até o óbvio precisa ser aprendido. Quer ver?

Tenho recebido uma série de convites para aulas de respiração. Quer coisa mais óbvia e vital do que oxigenar nossos pulmões? 

E a Fonoaudiologia, os cursos sobre como discursar, terapias da fala etc, etc...? Também é necessário saber expressar bem suas ideias, seus pensamentos e seus argumentos, ou ficará deslocado em seu ambiente de trabalho, nos almoços em família e até na mesa de bar com os amigos. Muita gente fala, fala e não diz nada; é preciso aprender a falar, a utilizar este recurso que aprendemos ainda bebês, mas para o qual muitos deixam de se atentar ao longo da vida. 

Até a visão tem andado comprometida. Tem gente que vê e finge que não viu; e outros que não veem e juram que assistiram de camarote. E aqueles que passam a vida inteira enxergando apenas um caminho, enquanto há uma variedade de novas possibilidades piscando bem ao lado? Nem se fala. Não nascemos sabendo enxergar. O mundo é uma luz turva que vai sendo delineada conforme damos sentido ao que presenciamos. Saber enxergar vai muito além do que vemos.

E escutar? Ah... esse ganha o prêmio! Ninguém para mais pra escutar obviedades como o som do mar à noite, o barulho do vento passando pelas folhas das árvores, a chuva caindo no telhado, o silêncio... Ouvimos, sim, tudo isso, mas não escutamos. Não paramos mais para sentir o som e o silêncio da vida. Tudo está dominado pela fugacidade dos momentos, das buzinas incessantes, dos sons eletrônicos. Escutamos mais os alertas do celular do que a nós mesmos. E o silêncio deixa de funcionar como paz de espírito e passa a significar solidão. Andamos tão vazios de nós mesmos que a obviedade de estar só, em silêncio, já incomoda.

E aí que entra o propósito desse texto. Muita gente pensa que amar faz parte do instinto, como se já nascêssemos sabendo o significado deste sentimento. A maior parte das pessoas exige do outro um amor quase natural, como obrigação existencial, e não é. É preciso aprender a amar também. O amor é, sim, aprendido ao longo da vida, construído conforme a relação com o outro se desenvolve. “Amor” à primeira vista não passa de mera simpatia. Amor de verdade é aquele aprendido e ensinado com o tempo, através de atitude e diálogo.

Enquanto muita gente fala, fala e não diz nada, enxerga apenas uma possibilidade, ouve, mas não escuta, muitos estão “amando” em vão, esperando um amor terminado e eterno. Enquanto não atentarmos para as obviedades, permaneceremos absortos em complexas teorias, buscando respostas que estão bem abaixo dos nossos narizes. 

Até o óbvio precisa ser aprendido.

7 de nov. de 2013

A insustentável leveza do ser




"O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era o fardo, mas a insustentável leveza do ser."

Milan Kundera

26 de out. de 2013

Einmal ist keinmal





“Einmal ist keinmal, says Tomas to himself. What happens but once, says the German adage, might as well not have happened at all. If we have only one life to live, we might as well not have lived at all.”


― Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

Antes que elas cresçam - Affonso Romano de Sant'Anna





Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. 

No princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

22 de out. de 2013

O mais cruel exercício à paciência - Livia Leal





Aprender a conviver com aquilo que não podemos mudar é o exercício mais cruel à nossa paciência. Quando lidamos com algo pelo qual podemos nos responsabilizar, vislumbramos como alternativa a possibilidade de mudança por meio da atitude positiva. No entanto, diante de acontecimentos que escorrem pelos nossos dedos e que nos influenciam sem que tenhamos qualquer chance de reação, vemos como única opção a submissão ao poder incerto de transformação do tempo. Aceitar que, embora sujeitos de nossa própria existência, dependemos muitas vezes desse traiçoeiro aliado requer um imenso esforço diário, que deve ser capaz de tirar dos nossos ombros a responsabilidade que é do mundo.

"Muss es sein? Es muss sein!"


27 de set. de 2013

How To Be Alone - Tanya Davis



"Society is afraid of alone though. Like lonely hearts are wasting away in basements. Like people must have problems if after a while nobody is dating them. But lonely is a freedom that breathes easy and weightless, and lonely is healing if you make it. You can stand swathed by groups and mobs or hands with your partner, look both further and farther in the endless quest for company.
But no one is in your head. And by the time you translate your thoughts an essence of them may be lost or perhaps it is just kept. Perhaps in the interest of loving oneself, perhaps all those “sappy slogans” from pre-school over to high school groaning, we’re tokens for holding the lonely at bay.
Cause if you’re happy in your head, then solitude is blessed, and alone is okay.
It’s okay if no one believes like you, all experience is unique, no one has the same synapses, can’t think like you, for this be relieved, keeps things interesting, life’s magic things in reach, and it doesn’t mean you aren’t connected, and the community is not present, just take the perspective you get from being one person in one head and feel the effects of it."