7 de ago de 2009

Verônica Decide Morrer - Paulo Coelho (Vitríolo)



Era curioso que ninguém jamais tivesse se referido ao Vitríolo como um tóxico mortal, embora a maioria das pessoas afetadas identificasse seu sabor, e se referisse processo de envenenamento como Amargura.
Todos os seres tinham Amargura em seu organismo - em maior ou menor grau - assim como quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas estas duas doenças só atacam quando o paciente acha-se debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”. Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes - e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a Amargura começa a causar danos irreversíveis. O grande alvo da Amargura (ou Vitríolo, como preferia o Dr. Igor) era a vontade. As pessoas atacadas deste mal iam perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos já não conseguiam sair de seu mundo – pois tinham gasto enormes reservas de energia construindo altas muralhas para a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse. Ao evitar o ataque externo, tinham também limitado o crescimento interno. Continuavam indo ao trabalho, vendo televisão, reclamando do transito e tendo filhos, mas tudo isso acontecia automaticamente, e sem qualquer grande emoção interior – porque, afinal, tudo estava sob controle. O grande problema do envenenamento por Amargura era que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestavam mais. Depois de algum tempo, já não restava ao amargo qualquer desejo. Não tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.

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