16 de mar de 2011

Tenho medo do me ser, porque o me ser pode ser um tanto quanto ridículo.

A outra - Por Livia Leal


Seu único desejo era ser mais que ela. Ela, que a qualquer momento poderia lhe tirar o tudo. Ela, cuja presença era sentida sem que se dissesse nada. A outra. Ou seria a ela? Medo de que fosse a ela; nunca poderia pensar que fosse ela. Preferia acreditar em uma linha que a distanciava dela. Medo de que se defrontasse subitamente com o inimigo mortal e tivesse mais do que a sensação de estar diante de alguém pronto para apertar o botão vermelho. O Fim. No entanto, a queria próxima, como uma presa que vigia o perigo iminente. Queria tê-la, senti-la em sua cruel ânsia de desprezo. Queria abraçá-la também, por que não? O outro lado da sua vida, sua não-vida, estava nas mãos dela, que a olhava com tanto desdém e falsa dissimulação. Tinha o poder sem saber, e isso a angustiava: ela tinha o poder sem se dar conta de que carregava consigo uma não-vida. Como alguém que carrega um diamante no casaco sem saber e, depois de tirar e botar o casaco um tanto de vezes, se dá conta da presença da jóia, estupefato e aflito por ter tido tantas chances de perdê-lo. Sua não-vida era um diamante e estava no casaco dela, que a deixava à beira da vida quando remexia o casaco e o jogava longe, distraída e indiferente. A impotência que sentia era a força dela, era o que a fazia ganhar qualquer disputa. Ela poderia até mesmo assustá-la se quisesse. Mas estava distraída demais para perceber a não-vida, tão próxima e frágil.


Lídia parecia acordar de um sonho ruim, quando sua irmã Lidiane a chamou para sair. Estava frio e nublado quando as duas irmãs corriam para abraçar a vida: Lídia com seu vestido cinza quase desbotado; Lidiane com seu casaco cheio de vida, cujo bolso era grande demais para que sua mão alcançasse o fim.

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector


O que pensar naquele instante? Ela estava tão pura e livre que poderia escolher e não sabia. Enxergava alguma coisa, mas não conseguiria dizê-la ou pensá-la sequer, tão diluída achava-se a imagem na escuridão de seu corpo. Sentia-a apenas e olhava expectante pela janela como se olhasse seu próprio rosto na noite. Seria esse o máximo que atingiria? Aproximar-se, aproximar-se, quase tocar, mas sentir atrás de si a onda sugando-a em refluxo firme e suave, sorvendo-a, deixando-lhe após a assombrada e impalpável lembrança de um a alucinação... Mesmo naquele momento, percebendo a noite e seus próprios pensamentos indistintos, ela ainda restava separada deles, sempre um pequeno bloco fechado, assistindo, assistindo. A luzinha brilhando silenciosamente, afastada, solitária, inconquistada. Jamais se entregava.


Trecho de Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector.

14 de fev de 2011

A (des)arrumação - Por Livia Leal



Hoje estava arrumando meu armário, como, aliás, faço com uma freqüência acima da média. Sinto sempre essa necessidade de renovar os ares, mudar, tentar o novo. Mas hoje isso aconteceu de uma forma bastante diferente.
Algumas roupas antigas ficam guardadas lá no fundo da gaveta, em um cantinho quase que secreto, quem sabe até empoeirado. Guardamos essas roupas sem saber por que, já que, na maioria das vezes, não usaremos mais e elas continuarão lá naquele canto secreto do armário, somente ocupando espaço.
No entanto, hoje resolvi usar uma dessas roupas. Tamanha fora minha surpresa ao ser questionada: “roupa bonita, é nova?”. Parei para pensar na resposta e acabei me perdendo nos meus pensamentos...
Percebi que temos sempre uma roupa dessa guardada no armário. No meio dessa necessidade de novidade, no meio da fugacidade do tempo e do descartável, existem coisas que permanecem. Estamos à procura de renovação de espírito, de recriação de nós mesmos, e quase sempre acreditamos ter conseguido.
No entanto, no fundo somos sempre os mesmos. Somos as roupas velhas guardadas sem serem mais usadas, como se, às vezes, tivéssemos que resgatar algo de bom no passado que ficou pelo caminho. Entre toda essa ânsia por renovação, é preciso ter o momento de sentar, remexer nas roupas antigas e relembrar quem somos, pois há coisas que realmente nunca mudam.

5 de fev de 2011

Deixe-se em paz - Por Martha Medeiros



Geralmente é o que se deseja intimamente: paz para o mundo, paz para todos, paz para os torcedores, paz para os moribundos, paz para os iraquianos. É um desejo legítimo, mas qual a nossa contribuição prática para ajudar a construir uma serenidade universal? O máximo que podemos fazer é garantir nossa própria paz.
Portanto, esses são os meus votos: deixe-se em paz.

Parece uma frase grosseira, mas é apenas um desejo sincero e generoso. Deixe-se em paz. Não se cobre por não ter realizado tudo o que pretendia, não se culpe por ter falhado em alguns momentos, não se torture por ter sido contraditório, não se puna por não ter sido perfeito. Você fez o melhor que podia.

Aproveite para estabelecer metas mais prosaicas para o futuro que virá, ou até meta nenhuma. Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, prometer mundos e fundos como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar numa pessoa mais completa e competente. Você será o que sempre foi — e isso já é muito bom, pois presumo que você não seja nenhum contraventor, apenas não consegue dar conta de todos os seus bons propósitos, quem consegue? Às vezes não dá. Vá no seu ritmo, siga sendo quem é, não espere entrar numa cabine e sair de lá vestido de superhomem ou de super-mulher. Deixe de fantasias.
Deixe-se em paz.

Se quer tomar alguma resolução, resolva ajudar os outros, fazer o bem, dedicar-se à coletividade, seja mais solidário. Não deixe os menos favorecidos na paz do abandono, na paz do esquecimento. Mas esquecer um pouco de você mesmo, pode. Deve. Não se enquadre em comportamentos que não lhe caracterizam, não se enjaule por causa de decisões das quais já se arrependeu, não se arrebente por causa de questionamentos incessantes.

Liberte-se desses pensamentos todos, dessa busca sofrida por adequação e ao mesmo tempo por liberdade. Nossa, ser uma pessoa adequada e livre ao mesmo tempo é uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Será mesmo tão necessário pensar nisso agora? Deixe-se em paz.

Não dê tanta importância à melhor roupa para vestir, à melhor frase para o primeiro encontro, às calorias que deve queimar, à melhor resposta para quem lhe ofendeu, às perguntas que precisa fazer para se autoconhecer.

Chega de se autoconhecer. Deixe-se em paz.

No fundo, estou escrevendo para mim mesma.

Não me deixo em paz. Estou sempre avaliando se agi certo ou errado, cultivo minhas dúvidas com adubo e custo a me perdoar. Tenho passe livre para o céu e também para o inferno. Preciso me deixar em paz, me largar de mão, me alforriar.

Só falta alguém ensinar como é que se faz isso.