17 de ago de 2015

Por que as mulheres amam e os homens odeiam Christian Grey? - Por Livia Leal

Em uma sociedade que exige das mulheres padrões de beleza inalcançáveis e, ao mesmo tempo, uma inteligência e seriedade quase que impecáveis, a figura do Christian Grey parece representar a virada de mesa feminina.



Há alguns anos atrás, fervilhava nas redes sociais o sucesso avassalador – tão avassalador quanto suas críticas – de um romance de E. L. James chamado “50 tons de cinza”, que trazia o empresário Christian Grey como destinatário de um desejo sexual intenso por parte da protagonista Anastasia Steele. 

Bonito, charmoso, atlético, inteligente, educado, respeitoso e, ao mesmo tempo, feroz, intenso, intrigante: Christian Grey parecia ser tudo o que qualquer mulher poderia querer para si. No entanto, o que pouca gente percebeu é que não era o Christian Grey que elas queriam, e sim o que o Christian Grey representava.

Em uma sociedade que exige das mulheres padrões de beleza inalcançáveis e, ao mesmo tempo, uma inteligência e seriedade quase que impecáveis, a figura do Christian Grey parece representar a virada de mesa feminina. Não por acaso, o sucesso do livro gerou muita indignação por parte do público masculino. Os que se consideravam respeitosos e cumpriam o papel de “bonzinhos” bradaram contra o perfil autoritário e violento do personagem, enquanto os cafajestes se sentiram afrontados e diminuídos diante da aparente “perfeição” do empresário. Muitos reagiram a “tamanho insulto” com uma crítica ferrenha: “como uma mulher que cultiva sua independência e autonomia pode desejar um homem autoritário e dominador?”.

Afinal de contas, o que elas querem?

Que o Christian Grey é capaz de tirar o fôlego das mulheres ninguém nega. Mas, na verdade, o que elas realmente queriam, mesmo sem se darem conta disso, era que os homens vestissem por um dia inteiro de trabalho os sapatos de salto, que convivessem, mesmo que por um momento, com parâmetros de perfeição humanamente inatingíveis e tivessem que lidar com a frustração de não se encaixar no perfil romântico/avassalador/bem-sucedido/bonito/objeto de desejo.

O que atraía as mulheres era a oportunidade de revelar o quão difícil é ser profissionalmente reconhecida, socialmente respeitada, mãe exemplar, e, ao mesmo tempo, manter o corpo estampado na capa da revista, ou sua autoestima intacta diante de tanta concorrência. Toda mulher tem sua própria versão feminina de Christian Grey, e luta diariamente contra a dominação dessa pretensão de perfeição que persegue o espírito feminino.

Ao que parece, o livro - que, inclusive, teve recentemente uma versão adaptada aos cinemas – ficou mesmo famoso pela abordagem da sexualidade feminina de uma forma mais aberta e ousada, recebendo muitas críticas pela relação de poder e dominação que se estabelecia entre os protagonistas. 

No entanto, ali, nas entrelinhas, no apagar das luzes, reside uma identificação feminina muito mais forte com uma relação de dominação enfrentada diariamente pelas mulheres, ligada à busca pela perfeição, que muitas vezes aprisiona. No fim, todas esperam dominar – e superar – essa imagem da perfeição para aceitarem a si próprias, com seus medos, suas falhas e sua insegurança. Final feliz para Christian e Anastasia.


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